11 de maio de 2013

A BRUXARIA E A ERA DIGITAL: é possível treinar ou ser treinado através da internet?

Sempre escutamos ou lemos que a Bruxaria é uma religião, ou ofício, ou tipo de religiosidade antiga, que faz parte do próprio desenrolar da História do ser humano. Quando pensamos em “Bruxa” a imagem estereotipada nos vêm à mente, seguida pela imagem de nós mesmos, após os anos de estudo e esclarecimento do que é, de fato, uma bruxa, um bruxo.
Antiga... antiga religião, antiga prática de fazer poções, Bruxaria, Wicca, Bruxaria Tradicional, Bruxaria Moderna... Não importa para o nosso papo aqui que definição queiramos dar para a prática da Bruxaria. O fato é que hoje as antigas práticas da bruxa se mesclam com a era digital. Difícil ver uma bruxa nos dias de hoje sem celular, notebook, tablet, enfim... Vivemos num mundo cuja tecnologia é o caminho para nos aproximar daquilo que é antigo, tradicional. Isso se comprova com facilidade.
Pergunte-se de onde você conheceu pessoas da Bruxaria. Pergunte-se aonde você vai para aprender sobre Bruxaria. Eu garanto que boa parte de vocês conheceu praticantes na internet e quando quer saber algo é na internet que você vai buscar. Aliás, você está lendo este artigo por causa da internet!
Pois é, hoje em dia a internet é o grande canal da comunidade pagã, onde se aprende, onde se conhece gente... onde, para muitos, inicia-se a descoberta do caminho sacerdotal. Sim, para muitas vertentes da Bruxaria que a encaram como uma religião sacerdotal, como por exemplo, a Wicca, os seus adeptos passam por um longo caminho rumo ao sacerdócio. A esse caminho damos o nome mais comum de Dedicação. Durante a dedicação inicia-se o processo iniciático de uma pessoa dentro dos mistérios da Bruxaria.
Esses mistérios são encontrados no mundo, na vida, em outras religiões? Sim, mas com nuances diferentes, enfoques diferentes. Mesmo dentro da Bruxaria, o acesso aos mistérios tem suas particularidades de acordo com o caminho ao qual você pertence. Se você faz parte de um grupo, de uma tradição, se é solitário, enfim, existem muitos caminhos e cada qual tem sua peculiaridade. No entanto, os mistérios são os mistérios e estão aqui, lá, em toda parte... quem tiver olhos que enxergue.
E o que isso tudo tem a ver com a era digital?
Bem, deixemos os solitários de lado por hora. Não por menosprezo, de modo algum! Mas por que meu foco hoje é falar dos treinamentos sacerdotais que se desenvolvem pela internet. Isso é possível? Como seria isso?
Eu comecei falando que o moderno, o tecnológico nos abre as portas do antigo, do tradicional. Através do novo, acessamos o velho, sim. Mas se nos remetermos aos primórdios da Bruxaria... Ok, nem precisamos ir aos primórdios. Vamos ao período medieval. As bruxas sempre foram mulheres fora de seu tempo, modernas dentro das possibilidades que seu tempo permitia. Caldeirão? Se já existisse panela elétrica, com certeza seria uma dessas que usaríamos em nossos ritos! Sim, as bruxas sempre foram moderninhas! E por isso mesmo, não me espanta o fato de a Bruxaria ter como ponto de proliferação a internet. Quantos bruxos e bruxas você conhece que entendem de fazer sites, de navegar nas redes sociais? Quantos são ótimos em desenho digital, trabalham com internet? Quantos vídeos falando sobre Bruxaria você já viu no Youtube? Sites, grupos, comunidades, fanpages, blogs, vlogs, podcasts... Aposto que você vai achar um número razoável de pessoas que desenvolve algum trabalho de Bruxaria ligado a um ou mais desses conceitos.
Então esse é o nosso mundo, essa é a nossa realidade. E se assim é, já podemos ampliar os horizontes de treinar pessoas on line? Podemos dedicar pessoas on line? Podemos iniciar pessoas on line? Bem, aí esbarramos numa questão complexa. Até onde podemos ir? Até onde devemos ir?
Podemos orientar pessoas pela internet. Muitos desempenham essa função e é maravilhoso. Eu diria até mesmo que é possível treinar alguém via internet, mas nem tudo dá para ser feito à distância. Certas coisas, certos rituais precisam ser presenciais.
Por exemplo, uma pessoa que treina alguém pela internet, sem qualquer rito de marcação desse momento, passando a dar as orientações com base em sua experiência, mas sem vínculo espiritual é tão somente uma orientadora. No caso, a pessoa que está sendo orientada será, se assim for o caso, uma autoiniciada.
Orientar uma pessoa é diferente de dedicar uma pessoa.
Um dedicado e um dedicador já estabelecem um laço espiritual que vai se fortalecendo (ou não) com o decorrer do treinamento e que se consolida com a entrada do dedicado naquilo que chamamos de estado iniciático, momento em que ocorre a iniciação e a entrada efetiva daquela pessoa na família espiritual do dedicador/iniciador. É um nascimento com vínculos fortíssimos entre o iniciador e o iniciado. E também entre os irmãos e irmãs daquela família.
Agora, orientar uma pessoa é falar o que ela tem que estudar, é dar um norte para onde tem que ir, num nível formal, sem qualquer vínculo espiritual. Mesmo que a pessoa que orienta tenha "olhos" para enxergar o momento em que aquela pessoa está preparada para se iniciar, ela não é nem o dedicador e nem o iniciador dessa pessoa, mas apenas um orientador.
Os laços da dedicação (e ainda mais após a iniciação) são laços muito profundos. E o trabalho de um sacerdote como instrumento dos Deuses no moldar de um dedicado ou iniciado vai muito além de mostrar o caminho do que se tem que estudar, quando e como se tem que estudar.
Sendo assim, pode acontecer dedicação à distância? Pode sim, só que essa distância não pode ser total. É preciso que haja certa periodicidade de encontros, participação em certos ritos junto com o dedicador... e, por óbvio, o rito de iniciação é presencial. Não tem como ser diferente disso. Até mesmo por todo o processo antes, durante e depois do ritual. A dedicação de uma pessoa, nem sempre leva a mesma a entrar na sua família mágica... muitos param durante a dedicação. E a orientação menos ainda.
Podemos dizer então que temos:
Dedicação: aquela em que o postulante vai aprender tudo com base no que foi aprendido pelo sacerdote, pelo coven ou tradição. A dedicação é a "pré entrada" de uma pessoa dentro de uma egrégora, dentro de um sistema mágico que envolve aquele sacerdote, aquele grupo, por isso tem um rito próprio que marca o início desse período de preparação e treinamento. Após esse período, o postulante passa a fazer parte efetivamente da família espiritual do sacerdote, que é seu coven ou tradição, tendo acesso a ritos e mistérios que são fechados e que apenas iniciados daquele grupo têm acesso.
Orientação: é mostrar o que o postulante deve aprender, ajudar com dúvidas, trocando ideias. Se o sacerdote tem um grupo (coven ou tradição), ele já tem o material litúrgico daquele grupo, e nesse tipo de orientação, geralmente, o orientado não tem acesso a esse material. Pode ter acesso a ensinamentos obviamente vividos pelo orientador, mas não à liturgia própria do grupo ao qual o sacerdote pertence. Não há rito de entrada, não há vínculo espiritual, não há orientação no sentido de auxiliar o orientando na inserção dos mistérios dentro dos preceitos vividos pelo orientador.
Olhando para trás, penso em como tudo se transforma e de como de fato somos os moldadores, os co-criadores de nossa realidade, junto dos Deuses.
Antes tínhamos os bruxos solitários ou de família. A Bruxaria se desenvolveu primordialmente nesse meio, tanto que até hoje temos a tendência de chamar de irmãos, filhos, netos, as pessoas que fazem parte de nosso grupo, de nossa tradição. É um resquício de um passado longínquo, mas que, de certo modo, ainda está presente e vivo em nossas vidas. Quando fazemos parte de uma verdadeira família espiritual entendemos isso e outras coisas. É um reencontro de almas antigas que um dia celebraram juntas e que hoje podem novamente celebrar. E para muitos, de lugares distantes, isso só é possível graças à modernidade e à tecnologia!
Sendo assim, um treinamento à distância é possível, mas existem limites para esse procedimento, pois o convívio, o vínculo, o amor, a cumplicidade e a construção energética de uma relação ao ponto de chamar outra pessoa de irmão, de filho – ou seja de que a outra pessoa faça parte de sua família – é uma lenta construção.
É muito comum que as pessoas que desejam fazer parte de um grupo tendam a dizer que amam as pessoas daquele grupo, sem que isso seja real. Da mesma forma, é bastante comum que as pessoas queiram ver seus grupos crescer, ascender e se tornar grandes grupos, famosos... Isso é uma questão de ego que parece, inclusive, ir de encontro com a ideia de que a Bruxaria jamais foi uma espécie de religiosidade de massas.. E a internet, por ser uma ferramenta de disseminação, de promoção de encontros excepcionais, serve a esses propósitos, gerando uma banalização da ideia de família espiritual, de vínculo espiritual entre mestre e discípulo... Contudo, de forma alguma a internet substitui o contato olho no olho, a prática conjunta, o abraço.
Talvez cheguemos a um ponto em que esses questionamentos sejam desprezados. Talvez já hoje, enquanto você lê este artigo, sua opinião sobre o assunto seja diversa do que escrevi. São as transformações, os ciclos da vida... Mas, para mim, embora eu tenha amigos queridíssimos on line, no meu trilhar e na minha família espiritual, só faz parte aquele que sai da tela do computador e me abraça sinceramente e comigo comunga no moderno caminho dos Antigos Deuses.
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