2 de agosto de 2011

Paganismo, Bruxaria e Wicca: conceitos, diferenças, semelhanças e polêmicas


Esse é um assunto que gera muita discussão e confusão na mente das pessoas. Até hoje não vi consenso entre as pessoas, o que acaba gerando uma certa pane na cabeça especialmente daqueles que se interessam em aprofundar os conhecimentos históricos sobre a Arte. Paganismo, Neopaganismo, Bruxaria, Wicca, Arte, Witchcraft, Bruxaria Moderna, Bruxaria Tradicional, Bruxaria Eclética... são muitos termos para denominar certas práticas que envolvem o culto a deidades pré-cristãs.

A proposta desse estudo é apresentar alguns conceitos, delineando um quadro mais ou menos organizado do que vem a ser isso que uns chamam de um nome X e que outros chamam de um nome Y. Será que é tudo a mesma coisa? Essa pergunta eu deixo para vocês refletirem e responderem ao final da leitura.

Primeiramente, para que ninguém se perca, chamarei de Caminho o que alguns chamam de Bruxaria e outros de Wicca, sem distinção. Em outras palavras quando eu escrever “Caminho” estou me referindo à prática de todos os adeptos de Bruxaria/Wicca, ok?!

Muito bem. Gosto muito de escrever sobre o que eu sinto e sobre como eu sinto as coisas, logo, vou começar nossos estudos por minha própria experiência. Conheci o Caminho em 1995 e passei a praticar em 1996. O primeiro termo que encontrei para me autodenominar foi “bruxa”. Naquela época, eu não sabia que existia outro termo para “isso”. Para mim era Bruxaria e ponto. Somente em 1998 eu vi pela primeira vez a palavra “Wicca”, e para mim soou como sinônimo de Bruxaria. Eu tinha uma forma muito peculiar de praticar, era solitária e não tinha acesso à internet (possivelmente por essa razão eu demorei para esbarrar no termo “Wicca”). Em 1999, comprei meu primeiro computador. Ainda no site de buscas “Cadê?” coloquei lá “Bruxaria” e então muita coisa mudou no meu mundo. Com uma enxurrada de informações, eu fui ficando cada vez mais feliz e cada vez mais confusa. Naquela época, Bruxaria e Wicca, para mim, eram sinônimos. Stregheria (ainda não se falava muito de Stregoneria) e Bruxaria Tradicional eram, no meu modo de ver, vertentes de Bruxaria/Wicca.

Comecei a conhecer gente estranha como eu, e aí começaram novas confusões. Uns diziam que eu era praticante de Bruxaria, outros que eu era praticante de Wicca ou Wica. Surtei por um tempo e logo depois, como é bem a minha cara, cansei disso e quando alguém perguntava o que eu era eu dizia “pagã”. Aí uns me corrigiam de uma forma nada delicada (muito típico de certos adeptos do Caminho) e diziam que eu era, na verdade, neopagã. Diacho! Me enchi de tudo isso e quando alguém me perguntava o que eu era, eu respondia “sou gente”. Coisa que aprendi com uma grande amiga chamada Lucinha.

Passei a estudar, observar, ler e ouvir muitas opiniões sobre o assunto. Coletava tudo e então refletia. Entendi uma coisa que eu acho muito válido partilhar com vocês: esse é um dos temas do Caminho que talvez jamais encontre uma definição. Então, estudem, leiam, ouçam as pessoas e então pensem, reflitam e formulem suas próprias conclusões. Isso vale para outros temas ligados ao Caminho.

Bem, para começar a entender toda essa celeuma. Vamos tentar conceituar as coisas. A partir de agora, passarei a dar a minha visão sobre o cenário, trazendo sempre a visão de outras pessoas. Não encontrei melhor modo de fazer isso, senão a partir do que eu compreendo sobre essa “bagunça”.

Pois bem. Primeiro precisamos entender que Bruxaria, Wicca, Bruxaria Tradicional, Bruxaria Eclética e outros termos, são religiões (para alguns) e ofícios (para outros) que envolvem o resgate de conceitos e práticas pré-cristãs voltadas à natureza + o uso de magia. Assim, podemos dizer que o Caminho faz parte do Neopaganismo, que por sua vez seria o resgate de práticas pré-cristãs ligadas à Terra. Aqui já temos algumas visões sobre o termo neopaganismo. Vejamos.

No Wikipédia encontramos as seguintes informações: “Neopaganismo, por vezes referido simplesmente como paganismo, é um termo utilizado para identificar uma grande variedade de movimentos religiosos modernos, particularmente aqueles influenciados pelas crenças pagãs pré-cristãs da Europa. Os movimentos religiosos neo-pagãos são extremamente diversificados, com uma vasta gama de crenças, incluindo o politeísmo, o animismo, o panteísmo e outros paradigmas. Muitos neopagãos praticam uma espiritualidade que é completamente moderna em sua origem, enquanto outros tentam reconstruir precisamente ou reviver, religiões étnicas como os encontrados em fontes históricas e folclóricas. A maior parte das religiões neopagãs são tentativas de reconstrução, ressurgimento ou - mais comumente - adaptação de antigas religiões pagãs, principalmente as da antigüidade pré-cristã européia, mas não restritas a estas, sem perder de vista as experiências e as necessidades apresentadas pelo mundo contemporâneo. Alguns neopagãos enfatizam sua conexão com formas antigas do paganismo, em uma forma de continuidade histórica marginal (à margem da religião que se auto-afirmava como única verdade no Ocidente, a cristã). (...) Este uso tem sido comum desde o renascimento neopagão na década de 1970, e agora é usado por acadêmicos e adeptos tanto para identificar novos movimentos religiosos que enfatizam o panteísmo e a veneração da natureza, e/ou que procuram reviver ou reconstruir os aspectos históricos do politeísmo. Cada vez mais, escritores eruditos preferem o termo "paganismo contemporâneo" para cobrir todos os novos movimentos religiosos politeístas, um uso favorecido pela publicação The Pomegranate: The International Journal of Pagan Studies. O termo "neopagão" proporciona um meio de distinguir entre pagãos históricos de culturas politeístas antigas e/ou tradicionais e os adeptos de movimentos religiosos modernamente constituídos. A categoria das religiões conhecidas como "neopagãs" inclui desde abordagens sincréticas ou ecléticas como a Wicca, o Neodruidismo, o Dianismo e o Neoxamanismo a abordagens mais ligadas a tradições culturais específicas, como as muitas variedades de reconstrucionismo politeísta (Helênico, Nórdico, etc). Nesse sentido, alguns reconstrucionistas rejeitam o termo "neopagão", porque pretendem criar uma abordagem historicamente orientada para além do neopaganismo mais eclético e geral.”

Eu achei essas explicações constantes do Wikipédia boas, mas com algumas confusões conceituais sobre Dianismo e os “teísmos” (monoteísmo, politeísmo, panteísmo, etc). Com relação ao Dianismo... no meu modo de ver, Dianismo é uma característica de determinadas vertentes do Caminho, não devendo estar enquadrada do lado do Neodruidismo ou Neoxamanismo, por exemplo. Mas isso é algo que preciso pensar melhor. Os “teísmos” seriam formas de culto daquilo que chamamos de Deus/Deusa/Deuses. Assim, cada religião caracteriza-se por ser monoteísta, politeísta, panteísta, etc. (em breve falaremos disso mais profundamente também), não são religiões em si.

Mas, em suma, o que o Wikipédia coloca é que Neopaganismo ou Paganismo Contemporâneo seria o conjunto de práticas religiosas, distintas entre si, mas pautadas em culto centrado na Natureza, tendo como talvez a maior foco as práticas oriundas da velha Europa (mas, frise-se, não apenas de lá).Essa associação do Neopaganismo com as práticas da velha Europa fazem com que muitas pessoas automaticamente pensem que Neopaganismo e Bruxaria são sinônimos, quando na realidade não são.

Bem, em linhas gerais, eu concordo com a forma de compreender o Neopaganismo colocada no Wikipédia, mas vejamos outras maneiras de encarar o termo Neopaganismo.

No site Bruxaria.net, encontrei um texto bacana para iniciantes, mas que, na minha opinião, contém algumas incorreções. Leiam o texto, vale a pena. Ao final, eu passo o link. Separei um trecho do texto para comentar:

“O Paganismo não é uma religião única, mas um termo que engloba todas as religiões que se baseiam no culto à Terra, à Natureza, às divindades naturais. O termo pagão foi generalizado a todos aqueles que não fossem batizados, mas o fato é que o significado do termo é bem mais profundo. Pagão vem do latim pagus ou paganus, que significa, basicamente, “morador do campo” ou “aquele que vive no campo”. Isso porque os povos do campo celebravam as colheitas, tinham sua religiosidade própria; não eram cristãos. Esse foi o termo utilizado pelos cristãos para denominar as pessoas que praticavam os ritos ligados à Natureza. Assim, quando alguém se diz pagão ou neo-pagão, está dizendo que sua religiosidade está ligada ao conceito que tem de sacralidade da Terra, e não que é contra o Cristianismo ou é satanista. Aliás, Satanismo nada tem a ver com Bruxaria, a não ser por definições pejorativas e cristãs.”

Esse trecho é bastante legal por nos fornecer a origem do termo “pagão”. Eu complementaria dizendo que o termo foi cunhado pelo Império Romano para tratar as pessoas do campo, mais ou menos como “caipiras”. Existe um texto muito interessante que eu retirei de um site chamado Neopagan.net, há anos atrás. Nesse texto, o autor explica de forma bastante interessante como esse termo era, na realidade, uma forma pejorativa de denominação daqueles que não eram adeptos do Cristianismo romano. Essas pessoas do campo eram diferentes das pessoas das cidades e mais voltadas ao culto da Terra e foram tidas como “menores”. Está aí a primeira forma de Bullying religioso e geográfico. Até hoje a gente sofre o ranço disso. Muitos de nós ainda carrega a ideia de que as pessoas das grandes cidades são melhores que as pessoas do interior, separamos as pessoas da cidade grande, dos caipiras... pois é, olha de onde isso vem.

Outra coisa legal de se atentar nesse texto, é que o autor fala de Paganismo ou Neopaganismo como sinônimos. E nós mesmos, no dia a dia, fazemos isso. Não há nada de errado nisso, mas se queremos falar, digamos, academicamente, devemos nos autodenominar Neopagãos, pois o que fazemos é resgate de práticas pré-cristãs nos dias de hoje, mesclado com práticas modernas.

Para apimentar as informações, também retirei do Neopagan.net, o trecho de um texto sobre variações do termo “Paganismo”. Vejam:

“Como outros termos universais usados para as religiões, Pagão/Paganismo requerem prefixos, ou adjetivos com o objetivo de exemplificar abordagens especificas, denominação ou sectos. Os termos abaixo são os que foram estabelecidos nos últimos 35 anos: “Paleopaganismo” ou Paleo-Paganismo é um termo universal para as fés originalmente politeístas, centradas na natureza dos povos tribais da Europa, áfrica, Ásia, America, Oceania e Austrália, como elas eram (e em alguns casos ainda são) praticadas como sistemas de crença intactos. As ditas “ grandes religiões do mundo”, Hinduísmo (anterior ao influxo do Islã na Índia), Taoísmo e Chintoismo, por exemplo, caem dentro dessa categoria, ainda que muitos membros dessas fés relutem em usar esse termo. Alguns sistemas de crenças paleopagaos são racistas, sexistas, homofobicos, etc. há bilhões de paleopagãos vivendo e cultuando os seus Deuses atualmente. “Mesopaganismo” ou Meso-Paganismo é um termo universal para uma variedade de movimentos, tanto organizados quanto não organizados, que começaram como tentativa de recriar, reviver ou continuar o que seus fundadores achavam que eram os melhores aspectos dos caminhos Paleopagaos dos seus ancestrais (ou predecessores), mas que foram altamente influenciados (acidentalmente, deliberadamente e ou involuntariamente) por conceitos e praticas provindas das visões de mundo monoteísta, dualísticas ou ateístas do Zoroastrismo, Judaísmo, Cristianismo, Islamismo e do Budismo mais recente. Exemplos desses temas de crenças Mesopagaos incluem a Maçonaria livre, o Rosacrucianismo, a Teosofia, o Espiritualismo, etc, assim como aquelas formas de Druidismo influenciadas por esses movimentos, as muitas fés africanas sobreviventes nas Américas (tais como o Vodu, a Santeria, o Candomblé, etc) Sikhismo, muitos sectos do Hinduísmo que foram influenciados pelo Islamismo e Cristianismo, Budismo Mahayana, a religião/ filosofia de Aleister Crowley, chamada Thelema, Odinismo (paganismo nórdico), muitas “tradições familiares” de bruxaria (aquelas que não são completamente falsas) e grande parte da Wicca ortodoxa (isto é a Wicca Tradicionalista Britânica). Também incluídos como Mesopagaos poderiam estar os assim chamados “pagãos-cristãos”, aqueles que chamam a si mesmos de “pagãos monoteístas”, e talvez aqueles satanistas que cultuam o deus egípcio Set, se realmente há algum deles. Os satanistas que insistem que eles não cultuam nada além deles mesmos, mas que gostam de usam o nome Satã por causa do seu significado “amedrontador” são simplesmente cristão e heréticos, assim como os Humanistas Seculares e outros ateus ocidentais, pois o Deus e o Demônio no qual eles não acreditam são aqueles definidos pela doutrina crista. Alguns sistemas de crenças mesopagaos são racistas, sexistas, homofobicos, etc. Existem pelo menos um bilhão de mesopagaos vivem e cultuando as suas deidades hoje. Neopaganismo ou Neo-paganismo é um termo geral para uma variedade de movimentos, tanto os organizados quanto os não organizados (a maioria), que surgiram a partir de 1960 A.D. (apesar de que eles tiveram fontes literárias provindas desde meados do século 19), e que são tentativas de recriar, reviver e continuar o que os seus fundadores acharam que eram os melhores aspectos dos caminhos Paleopagaos dos seus ancestrais, combinado com ideias humanistas e pluralistas modernos, ao mesmo tempo que esforçando-se conscientemente para eliminar tanto quanto possível o monoteísmo, dualismo e puritanismo tradicionais do ocidente. A essência das crenças Neopagas incluem uma multiplicidades de deidades de todos os gêneros sexuais, uma percepção dessas deidades como sendo tanto imanente quanto transcendente, um compromisso com as causas ecológicas e uma disposição para executar rituais mágicos, assim como espirituais, para ajudar a si mesmos e aos seus semelhantes. Os sistemas de crença neopagaos NÃO SÃO RACISTAS, SEXISTAS, HOMOFOBICAS, etc. O termo “Neopaganismo” foi popularizado nos anos 60 e 70 por Oberon Zell, um dos fundadores da Igreja de Todos os Mundos.”

Enfim, além de conceitos bastante complicados e uma aparente mistura confusa, eu não tenho certeza se essas definições são de fato corretas, embora me pareçam de certo modo coerentes. Então eu continuo entendendo o termo Neopaganismo como já descrevi, compactuando mais ou menos com o que está escrito no Wikipédia.

Bem, evoluindo nos estudos, podemos dizer então que o Caminho está dentro do Neopaganismo? Acredito que sim e afirmar isso talvez não gere tanta polêmica. O que gera polêmica é dizer que Bruxaria e Wicca são sinônimos ou que não são... Aí a coisa começa a complicar. Vamos tentar desenhar um cenário organizado. Para tanto, vou tentar dividir as turmas, de um lado aqueles que defendem que Wicca e Bruxaria são coisas diferentes, e de outro aqueles que defendem que são a mesma coisa.

Muitos dos que defendem que Bruxaria e Wicca são diferentes, se pautam nos seguintes preceitos, de modo geral:

Alguns afirmam que a Bruxaria não é uma religião, mas um ofício. O que isso significa? Bem, significa mais ou menos que você pode ter uma determinada religião e praticar Bruxaria. Assim, temos aquelas pessoas podem ir à igreja e praticar Bruxaria. Algo como uma tradição que seria passada de geração em geração.

Eu, particularmente, não sei se concordo plenamente com esse raciocínio, por que entendo que essas pessoas não estão praticando Bruxaria, mas apenas magia. Podemos pensar que algumas pessoas, na Idade Média, por exemplo, ia para a igreja e fazia feitiços e poções, mesclando conjurações pagãs com orações cristãs. Isso é bem comum até hoje... Mas isso, no meu modo de ver, é prática de magia, não de Bruxaria. Do contrário, eu seria bruxa hereditária então, pois a minha família possui uma série de práticas mágicas que é passada de mãe para filha (sim, na linhagem matrilinear). Essas práticas envolvem “coisas” pagãs e cristãs, uma mescla... Mas se você ousasse chamar minha avó ou minha bisa de bruxas, elas se sentiriam extremamente ofendidas. Eram católicas e muito. Com muito ainda a pensar, eu aceitaria chamar essas práticas de feitiçaria... mas Bruxaria, para mim, é outra coisa. Então chegamos ao problema das definições. O que é a Bruxaria? Pois é, melhor a gente continuar... Mais para frente eu vou colar aqui um trecho do livro História da Feitiçaria, de Jeffrey Russel, onde ele trata das origens etimológicas do termo em inglês Witchcraft. Vamos avançando...

Outro ponto que podemos colocar aqui, e que é defendido pelos que distinguem Bruxaria de Wicca, seria mais ou menos como dizer que existem práticas tradicionais, antigas, anteriores à Wicca (Bruxaria Moderna), essa última nascida em meados do século passado, e que ganhou espaço com Gerald Gardner. Bom, com relação a essa afirmação, devemos tomar muito cuidado, pois elas em geral estão baseadas nos estudos e conclusões de Margareth Murray sobre os julgamentos durante a inquisição europeia. Os estudos e conclusões de Margareth Murray são tidos por historiadores como incorretos. É bem possível que Bruxaria como conhecemos hoje jamais tenha existido antes de ser difundida por Gardner e Cia.

Outro elemento que distingue a Wicca da Bruxaria, na visão dessas pessoas é o fato de a Wicca possuir certos dogmas que a Bruxaria não necessariamente possui. Exemplo: Lei Tríplice.

Aqueles que defendem Wicca = Bruxaria, sempre dizem que as diferenças ditas por aqueles que não acham que Wicca = Bruxaria não são substanciais, mas que fazem parte da flexibilidade e diversidade próprias do Caminho.

Os que defendem que Wicca e Bruxaria são a mesma coisa, geralmente, trazem informações históricas relativamente recentes sobre o desenvolvimento do Caminho, demonstrando, em linhas gerais, que em essência, quando as leis que puniam a prática de Bruxaria foram revogadas e Gardner trouxe ao público a Bruxaria Moderna, ele se baseou em diversas práticas pré-cristãs para delinear a Bruxaria como conhecemos hoje, sem haver distinção de Bruxaria Moderna ou antiga. Em outras palavras, tudo teria nascido junto.

Há mais ou menos três anos atrás, na comunidade do Orkut “Sociedade Wicca”, um tópico do qual eu mesma participei e teci comentários, o Claudinei Prieto trouxe uma série de informações válidas sobre os motivos por trás das separações dos bruxos e wiccans. Separei uns trechos para você lerem e refletirem. Abaixo o trecho em que o Clau responde a um post meu sobre as origens confusas do termo Wicca:

“Creio que para compreendermos o porque desta confusão de usos de termos, precisamos pensar um pouco no cenário Pagão da década de 50 e sua evolução a longo da história de nossa religião.

Lá, em meados da década de 50, falar sobre Bruxaria era considerado uma heresia e crime. Isso é compreensível em uma sociedade ainda influenciada por fortes preconceitos e conotações negativas atribuídas ao longo de processos de perseguições àquilo que se acreditava ser Bruxaria. Hoje, sabemos que na realidade muito disso era pura fantasia e invenção e que provavelmente a maioria das pessoas que morreram durante a Inquisição eram bons cristãos que incomodavam o pensamento da Igreja católica (a religião dominante e a lei) por algum motivo e que por isso precisavam ser banidas da sociedade. Então elas eram nomeadas de hereges e consequentemente Bruxas e condenadas à execução. Isso foi criando uma verdadeira programação social e assim surgiu o uso comum da palavra Bruxa para denominar os praticantes de todos os tipos de práticas espirituais, religiosas ou mágicas diferentes e estranhas às convencionais e aceitas: as cristãs. Quando a última das leis contra a Bruxaria foi banida na Inglaterra em 1951 Gerald Gardner apareceu na cena afirmando que as Bruxas pré-medievais e medievais perseguidas, na realidade, eram praticantes da Antiga Religião da Europa. Esta religião teria sobrevivido clandestina através destas pessoas, que se encontravam nas florestas para celebrar seus Antigos Deuses Pagãos e que as muitas retratações e relatos atribuídos aos encontros de Bruxas, feitos na época da Inquisição e ligando-os a um culto demoníaco era, na realidade, uma deturpação promovida por motivos religiosos e políticos para denegrir a imagem da Bruxaria, a verdadeira religião dos antigos europeus. Afirmou, ainda, que esta prática teria sobrevivido com um novo nome, cuja raiz da palavra chegaria até a palavra Bruxaria (em inglês Witchcraft) e que o nome moderno para esta antiga Religão era Wicca. Deixando as controvérsias sobre a veracidade das alegações de Gardner de lado, mas nos focando na história da evolução do uso comum das palavras Wicca e Bruxaria pois é isto que nos interessa, no início, estas duas palavras eram vistas como sinônimas, usadas intercaladamente, representando um sistema mágico-religioso promovido por Gardner e muitos dos Bruxos que se tornaram populares na época.

A própria Janet Farrar, iniciada de Alex sanders, disse em uma entrevista concedida exclusivamente à 3ª Conferência de Wicca & Espiritualidade da Deusa realizada em 2007, que o que o Alex Sanders fazia estava longe de ser o que hoje consideraríamos Wicca. Alex Sanders estudou Magia Cerimonial muito tempo antes de conhecer a Wicca e nela ser iniciado e encontramos várias incongruências em suas práticas. Quem já não viu suas famosas fotos dentro de um círculo de magia cerimonial com inscrições de nomes como Adonai, El Shaday e muitos outros dizendo que estava realizando um ritual Wiccaniano?! Pura contradição! Ela afirma ainda que ele, como muitos outros, no alvorecer da Wicca, estavam praticando um mix de folclore Pagão europeu e de Magia cerimonial cabalística fortemente influenciada por ordens como a Golden Dawn, ainda muito influentes na época. Isso está distante dos caminhos da Wicca propostos por Gardner e aqueles caminhos que ela acabou por percorrer, se afastando cada vez mais de elementos judaíco-cristãos para beber em fontes mais apropriadas ao espírito da Wicca: O Paganismo europeu autêntico, de bases puramente xamanísticas. Assim, vemos que esta confusão sobre o emprego do termo Wicca=Bruxaria não é recente. No entanto, a diferença é que na década de 50 a maioria das pessoas queriam dizer que estavam praticando Wicca=Bruxaria e isso trouxe uma superexposição à Wicca com práticas completamente diferentes e esdrúxulas, que muitos começaram a criar uma separação artificial para os dois termos quando na realidade o que deveria ter sido combatido eram as práticas esquisitas denominadas Wicca=Bruxaria da época e que estavam distantes da verdadeira Arte.

Ao longo desse processo muitas formas diferentes de Wicca=Bruxaria surgiram, o que fez com que muitos não considerassem esses caminhos como formas de Wicca=Bruxaria válidos, pois eram levemente diferenciados do caminho considerado por muitos o "original": O Gardneriano. O que precisa ficar claro é que Gardner jamais disse que somente o que ele fazia era Wicca e afirmou repetidamente em seus livros que existiam outras pessoas que praticavam em grupo ou solitariamente esta forma de religião e pontuou diversas vezes que as tradições de fé destas pessoas poderiam ser diferentes da sua, pois a Bruxaria o longo de sua história teria se tornado uma religião fragmentada, com cada pessoa ou grupo tendo acesso a uma parte ou partes dela. O que torna a Wicca=Bruxaria ainda mais difícil é o fato de haver diferentes "escolas" e sistemas. Não existe uma Wicca=Bruxaria única. Existe, sim, um corpo de conhecimento composto de tradições que comparativamente são tão variadas e diferentes quanto seriam os climas dos diferentes estados ou regiões de um país que compartilham traços em comum para que sejam considerados pertencentes a mesma nação. Na Wicca=Bruxaria esses traços são simples de serem determinados: qualquer Tradição ou prática pessoal e solitária cuja cosmogonia reconheça a Deusa Mãe e o Deus Cornífero como princípios criadores da vida, observe tanto a Rede Wiccaniana quanto a Lei Tríplice, centre sua espiritualidade na Terra tendo como base os 4 elementos e possua um calendário litúrgico que se baseie na mudança dos ciclos sazonais e das fases lunares é Wicca=Bruxaria. Dentro disso, muitos elementos podem varia substancialmente, fazendo com que uma Tradição diferencie-se enormemente de outras.

O que precisa ficar claro aqui é a distinção entre uma Tradição ou prática pessoal específica dentro de uma religião maior e uma religião com os seus traços elementares e o que determina que indivíduos possam chamar-se ou considerar a si mesmos como membros e praticantes daquela religião. Assim, Wicca é a religião que engloba a Tradição Gardneriana, Alexandrina ou até mesmo uma prática pessoal e solitária específica e não o contrário. Poderíamos dizer, por exemplo, que o Gardnerianimo é subgrupo dessa religião, assim como o Dianismo, o Alexandrinismo ou o Georgianismo, e nenhuma dessas Tradições expressam a exclusiva identidade da Wicca, pois esta identidade é fragmentada.

Os elementos que fazem uma religião incluem um conjunto de crenças relacionadas a forma e natureza da divindade, dias sagrados, símbolos, uma história compartilhada e um conjunto de diretrizes aceitas. Esse critério pode ser descrito como tribal, o laço que liga as pessoas e cria uma comunidade que compartilha valores em comum, tradições, rituais e costumes através dos tempos. Hoje, a maioria dos ramos da Bruxaria de Paganismo e muitas das Tradições da Deusa, apesar de suas diferenças em relação aos nomes das Divindades e variações em cosmologia, compartilham esses critérios. Qualquer cristão que estiver viajando próximo a data da Páscoa pode esperar encontrar uma igreja em qualquer cidade, onde outros cristãos estarão celebrando a Páscoa. Da mesma forma, um Wiccaniano=Bruxo que esteja viajando para a Europa, Austrália, Espanha ou Brasil próximo a data de um solstício, equinócio ou dos Grandes Sabbats pode, em teoria, buscar por um Coven local e/ou por uma celebração pública onde ele poderá participar da cerimônia e se juntar a outros que acreditam na mesmo que ele. Dentro do ritual, ele poderá perceber que o tema e a estrutura da celebração do ritual será no geral, mas não especificamente, familiar, incluindo o lançamento de um círculo, invocação aos quadrantes e Deuses, cânticos, elevação e canalização de energia e confraternização, apesar das diferenças operacionais poderem ser altamente diferentes das suas próprias ou daquelas praticadas em seu grupo, Coven, Grove ou Círculo. É precisamente e exatamente porque a Wicca=Bruxaria é uma religião que estes temas comuns podem ser reconhecidos e são familiares a qualquer praticante.

Uma Tradição, por sua vez, é um corpo de conhecimentos e práticas que são passados para outros dentro da estrutura da religião ou que se desenvolvem espontaneamente ao longo da prática de nosso caminho e se tornam frequentes, no caso dos solitários. Mesmo que haja similaridade entre todas as demais, cada Tradição ou praticante solitário possui elementos de prática peculiares inerentes somente a si, com uma específica linhagem de iniciadores, instrumentos, práticas, cosmologia, conjunto de diretrizes e uma liturgia consistente que distingue aquele caminho ou prática pessoal de todos os outros.

Qual a real diferença entre Wicca e Bruxaria (Witchcraft)?

Basicamente nenhuma! Porém encontramos muitas pessoas que preferem dizer que praticam Witchcraft(Bruxaria) em vez de Wicca. Isso se dá pelo fato delas afirmarem que as práticas da Witchcraft compõem a Bruxaria Tradicional e são mais antigas que a Wicca. Outros, no entanto, preferem dizer que são Wiccanianos por que não querem ver seus nomes associados à Bruxaria, por causa das inúmeras conotações estigmatizadas e negativas a ela atribuídas através dos tempos.

O que muitas pessoas dizem ser Bruxaria(Witchcraft) parece ter começado a tomar forma somente a partir da década de 70 ou 80, numa tentativa de separar determinadas formas de práticas e religiosidade da Wicca massacrada e superexposta da época. O mesmo fenômeno está acontecendo atualmente entre os Wiccanianos Tradicionais que estão passando a usar o termo Wica, com apenas um C, para distinguir suas práticas daquelas expostas pelas muitas Tradições contemporâneas de Wicca. Nesta época, o uso da palavra Bruxaria(Witchcraft) foi adotado por muitas Tradições e pessoas que não queriam ser confundidas como sendo Wiccanianas ou não queriam ser acusadas de praticar Wicca sem terem recebido uma iniciação formal em uma tradição "válida".

Muitos nos meados da década de 70 e 80 começaram a se dizer praticantes de Witchcraft, pois não se encaixavam nos padrões esperados a um Wiccaniano. Desta forma, começaram a praticar uma espiritualidade intuitiva e muitas formas de espiritualidade e sistemas de magia nada europeus passaram a ser incorporados no que eles chamavam de “Bruxaria”. Parece que o termo Bruxaria passa a ser empregado para denominar qualquer sistema individual de ou de um grupo que seja muito mais flexível e eclético no conjunto de práticas, cujo único ponto de ligação entre ele e a Wicca seja a observação dos fluxos da natureza e a reverência a ela.

Os Wiccanianos e os Bruxos Tradicionais Britânicos nunca aceitaram que o que estas pessoas praticam seja Bruxaria e até hoje há uma briga política para encontrar uma verdadeira classificação para as práticas individuais destas pessoas. Talvez esse seja o maior obstáculo a ser transposto em nossa religião na atualidade!

Os Wiccanianos e Bruxos Tradicionais Britânicos estão certos quando afirmam que essas práticas pessoais não são Bruxaria, assim como os que praticam uma forma de espiritualidade intuitiva, sem qualquer ligação com a Wicca, estão certos quando dizem que o que eles fazem é Bruxaria. A Bruxaria que cada um deles se refere são dois sistemas diferentes entre si.

Poderíamos dizer que a Bruxaria que muitos praticam e dizem ser diferente de Wicca ganhou notoriedade depois da década de 70 e trata-se de um conjunto e práticas individuais cujo pilar central indiscutivelmente se baseia na Wicca, acrescidos alguns adornos pessoais para arrematar o sistema. É nisso que reside seu grande fascínio. Enquanto muitas Tradições de Wicca são fechadas, engessadas e inacessíveis, essa forma de prática é universal e abrange todos os sistemas.

Talvez Feitiçaria (do inglês Sorcery) fosse um termo melhor para descrever estas práticas individuais e intuitivas. A palavra feiticeiro(a) (do inglês warlock) vem do anglo-saxão waerlog que significa "aquele que rompe o juramento". Muitos do que afirmam que praticam “Bruxaria” e não Wicca, estão na realidade apontando que suas práticas não se vnculam mais ao conjunto ético e estrutural inerentes a Wicca (por onde muitos entraram no Paganismo). Logo, estão rompendo com ela e muitas vezes com os seus juramentos se um dia tiveram passado por uma iniciação. Desta forma, etimologicamente, Feiticeiro(a) é um termo muito melhor apropriado para nomear tais pessoas do que Bruxo(a), que indica um Sacerdócio da Terra como a Mavesper apontou apropriadamente anteriormente. Isso torna o que cada um faz melhor ou pior? Não!!! São apenas formas diferentes de Paganismo.

Particularmente não considero o que os haitianos praticam Bruxaria. Para mim a religião deles tem um nome e é Vodú. O mesmo acontece com as muitas outras formas de espiritualidade Pagãs. O que uma Stregga pratica, é Stregheria; O que um reconstrucionista egipcío pratica é Kemetismo; o que um reconstrucionista grego pratica, é Helenismo; O que um Druida pratica, é Druidismo. Isso é Bruxaria? Um Cristão diria que sim, em função do uso comum da palavra, mas na essência sabemos que cada um desses caminhos pratica coisas completamente distintas. Estamos unidos porque somos todos Pagãos, mas o que praticamos é completamente diferente a ponto de não ser a mesma religião e seguramente, no meu ponto de vista, nenhum dos caminhos supracitados é Bruxaria.

Creio que o primeiro passo para que as brigas ideológicas internas deixem de acontecer dentro do Paganismo é começarmos a usar termos corretos para distinguir nossas práticas.

O Neopaganismo é ainda muito jovem se comparado ás outras formas de religião e ainda precisa de muito para crescer. Estamos apenas aprendendo como nos chamamos e o que verdadeiramente praticamos.”

Bom, gente, essas palavras do Clau foram para mim de extrema importância, pois me fizeram enxergar as coisas sob outro aspecto... Que motivos levaram as pessoas a se denominarem X ou Y, não é mesmo?

Depois de ler e reler inclusive o que eu mesma havia escrito lá sobre o assunto, eu cheguei a certas conclusões... Entendo como válidas as colocações do Clau, mas ao mesmo tempo, enxergo que algumas pessoas (e elas se autodenominam wiccans, wiccanas ou wiccanianas) possuem uma série de práticas muito, mas muito parecidas, quase que uniformizadas e que diferem de outras. Um grande exemplo disso é a Roda do Ano. Hoje, por exemplo, 02/08, o sabá para os que rodam no sul é Imbolc, em honra a Deusa Brigith. Mas há quem não celebre assim e não se intitule praticante de Wicca. Em contrapartida, eu já ouvi pessoas que fazem questão de se intitularem bruxos e não wiccanos exatamente por celebrar a Roda do ano nos moldes que lemos na maior parte dos livros de... Wicca. Enfim, é complicado.

Há alguns anos, circulava na rede um texto do Claúdio Crow sobre o termo Paganismo e a Wicca, separei um trecho muito bom para dividir com você, para complementar as visões: “Essas tradições originais chegaram ate nós de diversos modos: pela preservação de costumes populares, pelos estudos de sociólogos, lingüistas, arqueólogos, folcloristas, etc, através do sincretismo religioso, pelos tais rincões que preservaram de modo ate certo ponto puro o conhecimento e os mistérios das tradições antigas. Baseados nessas informações, alguns indivíduos ou grupos de pessoas resgataram e reacenderam a chama dos antigos cultos pagãos, dando origem a tradições neopagas -ou seja, uma nova forma de paganismo, inspirada nas antigas tradições, mas sem vinculo direto com elas. Costumo dizer que os bons wiccanos hoje reconhecem os méritos do senhor Gardner como compilador das antigas tradições, mesclando elementos de diversas tradições na formação da Wicca como a conhecemos. Mas a Wicca, por seus méritos intrínsecos, livrou-se de seu criador, e hoje é muito maior do que ele. Para efeito de comparação, vejamos o caso de Thelema. É impossível falar de Thelema sem falar de Crowley. Mas hoje da pra falar de Wicca sem falar de Gardner. A Wicca adaptou-se a sua época, e hj é definitivamente uma religião, que oferece aos que a procuram uma ótima oportunidade de compreender seu papel no universo, compreender que fazemos parte de um todo como um todo, compreender que a vida já é um ato de magia e que, muito mais que um celebrador de rituais ou um lançador de encantamentos, o verdadeiro wiccano é um adorador da vida – ou assim deveria ser. “

Bom, gente, como podemos perceber... a coisa vai longe... Eu entendo que há o Neopaganismo, dentro dele está a Bruxaria como um todo. Dentro da Bruxaria, há um conjunto de pessoas que, com o passar dos anos, delineou suas práticas de uma forma tal que se tornou bastante peculiar. Essas pessoas são os praticantes de Wicca. Assim, embora possamos dizer que em origem, tudo é Bruxaria... hoje conseguimos identificar grupos que tem práticas tão “parecidamente uniformes” que esses grupos ganharam o status de vertente da Bruxaria, enquanto essa última ganhou o status de gênero, Wicca tornou-se uma espécie. Esse é o cenário que eu vejo se formar, pelo menos aqui no Brasil.

Não deixem de ler o trecho do livro de Jefrey Russel, que segue abaixo... Vale muito a pena.

“O que é uma bruxa?

(...)

Respostas mais corretas e úteis são: 1) uma bruxa é uma feiticeira: este é o enfoque antropológico; 2) uma bruxa é uma satanista: esta é uma abordagem histórica; 3) uma bruxa cultua os antigos deuses e pratica magia: este é o enfoque favorecido pelas bruxas modernas. Cada uma dessas abordagens pode ser justificada.

(...)

A mais comum das concepções equivocadas a respeito da feitiçaria é que “uma bruxa é coisa que não existe”. Um congestionamento de outros deve também ser eliminado antes de prosseguirmos em nosso caminho. “Um curandeiro é um bruxo”. De fato, um curandeiro ou médico-feiticeiro pratica magia, mas a sua função é combater as ameaças ou efeitos da bruxaria. “A bruxaria é a mesma no mundo inteiro.” Na verdade, existe uma grande diferença entre a Bruxaria da Europa e a feitiçaria de outras culturas. “A possessão está relacionada com a bruxaria.” A possessão é um ataque interno infligido a um indivíduo por espíritos malignos, uma invasão da psique que faz desse indivíduo um possesso; a obsessão é um ataque físico. Em nenhum dos casos a vítima faz um pacto consciente com o espírito maligno. Na bruxaria diabólica, por outro lado, a bruxa convidou voluntariamente e deliberadamente o espírito maligno através da invocação ou por outros meios. A maioria das bruxas modernas repudia inteiramente semelhante invocação.

“A missa negra é uma parte integrante da bruxaria.” A missa negra é desconhecida na bruxaria histórica européia e rejeitada não só pelas bruxas contemporâneas mas até pelos satanistas. A única época em que a missa negra foi seriamente realizada foi durante o reinado de Luis XIV, e mesmo então não tinha qualquer ligação com a bruxaria contemporânea. “A bruxaria é característica da Idade Média.” A bruxaria européia só surgiu em fins da Idade Média. A grande caça às bruxas ocorreu durante o Renascimento,a Reforma e o século XVII. “As bruxas são, usualmente, mulheres velhas e feias.” Tanto no passado quanto no presente, muitos homens praticaram e continuam praticando a bruxaria, e muitas bruxas são muito jovens e bonitas. “A bruxaria é um tema ridículo e trivial”. Durante a caça às bruxas pelo menos 100.000 pessoas foram torturadas e mortas como bruxas. As crenças em bruxaria tiveram grandes efeitos psicológicos e sociológicos. Antropólogos, psicólogos e historiadores tratam agora a bruxaria como assunto sério.

Mas o que é realmente uma bruxa?

Uma resposta reside nas raízes e no desenvolvimento das palavras.

A palavra inglesa WITCH deriva do inglês arcaico WICCA (pronunciado “witcha” e com significado de “bruxo”) e WICCE (“bruxa” e pronunciado “witcheh”), e do verbo WICCIAN, que significa “enfeitiçar”. Ao invés da crença comum entre as bruxas modernas, não se trata de uma derivação céltica e nada tem a ver com o inglês arcaico WITAN, “saber”, ou qualquer outro vocábulo relacionado com “sabedoria”. A explicação de que WITCHCRAFT significa “arte dos sábios” é falsa.

O termo WARLOCK (feiticeiro) deriva do inglês arcaico WAER, “verdade”, e LEOGRAN, “mentir”. Significava originalmente qualquer perjuro ou traidor. Por volta de 1460, o termo foi equiparado a WITCH. WITCH aplica-se a ambos os sexos. WIZARD, ao contrário de WITCH, deriva realmente do inglês medieval WIS, que apareceu npela primeira vez em cerca de 1440 com o significado de “mago”; nos séculos XVI e XVII designava um mago dotado de poderes sobrenaturais (HIGH MAGICIAN) e só depois de 1825 passou a ser usado como equivalente de bruxo (WITCH).

SORCERER deriva do francês SORCIER, do latim pós-clássico SORTIARIUS, “adivinho” ou “ledor da sorte”. Em francês, SORCIER significa “feiticeiro” (SORCERER) e “bruxo” (WITCH) indistintamente. A palavra inglesa SORCERY (feitiçaria, bruxaria) foi introduzida no século XIV e tornou-se comum no século XVI. Tal como no francês, o vocábulo inglês nunca foi muito claro: ora se refere à simples feitiçaria, ora a alguma modalidade de feitiçaria diabólica.

MAGICIAN (mágico, mago) deriva do francês MAGIQUE, do latim MAGIA e do grego MAGEIA. A palavra grega MAGOS designava originalmente os astrólogos-sacerdotes persas que acompanharam o exército de Xerxes na invasão da Grécia. Usada em inglês nos fins do século XIV, MAGIC (magia) subentendeu freqüentemente um refinado sistema intelectual oposto às práticas mais grosseiras de “feitiçaria”.

Alguns antropólogos não fazem distinção entre bruxaria e feitiçaria. Outros, adotando o critério proposto por Evans-Pritchard, usam uma distinção africana entre magos maléficos que usam objetos materiais como ervas e sangue em seus conjuros malignos que prejudicam outrem por meio de uma qualidade inerente e invisível que possuem. Esses antropólogos designam a palavra inglesa SORCERER (feiticeiro) os primeiros e WITCH (bruxo) os segundos.

A distinção é válida, mas a escolha das palavras é arbitrária. A maioria dos historiadores distingue entre bruxaria européia, a qual era uma forma de satanismo, e a fetiçaria em escala mundial, que não envolve veneração, mas exploração de espíritos maléficos.

A palavra inglesa WICCA, “bruxa”, que aparece num manuscrito pela primeira vez no século IX, tinha originalmente o significado de “feiticeiro” mas, durante a caça às bruxas, foi usada como o equivalente do latim MALEFICUS, bruxo diabólico. As bruxas modernas adotam uma postura muito diferente da dos antropólogos e historiadores. Para elas, a bruxaria é a sobrevivência ou o ressurgimento do antigo paganismo. As bruxas modernas diferem das bruxas históricas porque rejeitam a crença no Deus cristão e no Diabo cristão. Diferem dos feiticeiros em sua ênfase sobre o culto dos deuses, mais do que sobre a magia.

Nenhum desses usos pode ser considerado inteiramente correto. O presente livro usa o termo “feitiçaria” para a feitiçaria praticada em todo o mundo, seja ela benéfica ou maléfica, mecânica ou invocadora de espíritos. E emprega “bruxaria” em referência tanto à bruxaria diabólica da caça às bruxas quanto à moderna bruxaria neopagã.”

Leituras indicadas

Livro:

História da Feitiçaria. Relançado sob o nome de História da Bruxaria. Jeffrey B. Russel

Sites:

http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=cadernos&subsecao=apologetica&artigo=neopaganismo&lang=bra (site cristão que demonstra enorme preconceito, mas também muita informação sobre o que vem a ser Neopaganismo. Vale a pena conferir).

http://bruxaria.net/atualizacoes/neo-paganismo-e-religioes-reconstrucionistas/ (link do Bruxaria.net que mencionei no texto e que vale a leitura).

www.neopagan.net

No Orkut, façam parte da comunidade Sociedade Wicca. Procurem o tópico “Revelando a Wicca”. Tem muita coisa bacana por lá.

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