22 de novembro de 2018

Quando, diante de alguma situação difícil, escuto algum pagão perguntar "pq os deuses permitiram isso acontecer?", logo percebo que ele ainda não alcançou a profundidade do Caminho, e que ainda se encontra preso, ainda que inconscientemente, em ideias tolhedoras, como na ilusória ideia de barganha espiritual, de culpa, de castigo, numa ideia de divindade bastante superficial.

A eles?

Esclarecimento, conversa...

Às vezes precisa de um afago, de um colo para chorar... por que a frase pode carregar dores profundas. Doses de empatia são fundamentais, mas sempre misturadas com esclarecimento.

Indico conexão, ritualizar, praticar, sentir. Indico canto, reza, tambor, chocalho, pés descalços tocando a Terra de mansinho.

E para ajudar, indico essa leitura:

Paganismo. Uma Introdução da Religião Centrada na Terra, de Joyce e River Higginbotham


Peça que pessoa anote o nome, por que nesses momentos de dor, ela não vai se lembrar.




Beijos,
Lua Serena.

8 de outubro de 2018

#elenão


Queria contar algumas coisas para quem quiser e tiver ovários ou testículos dispostos para ler...
Eu sou mulher... e como mulher, a gente aprende a viver num mundo bem complicado para o pluralismo feminino. Um mundo bem machista, um mundo reducionista, que valoriza um tipo de mulher apenas. Vivemos um modelo social que desvaloriza mulheres fora do padrão, fazendo com que as vozes femininas atípicas, que bradam alto, sejam demonizadas ou ridicularizadas... exceto se tais vozes fizerem ou tiverem o apoio a modelos masculinos.
Eu sou uma mulher e sempre fui muito pobre, morei minha vida quase inteira na periferia de SP/SP. Sou mais um número na estatística de mães adolescentes de periferia, meus caros. Engravidei com 16 anos, pari com 17. Com 18 eu já era sozinha criando meu filho, trabalhando em subempregos, sem carteira assinada, empregos que exigiam pouca escolaridade. Estudei a vida inteira em escola estadual de periferia, então, as minhas chances de concorrer a uma vaga em universidade pública eram nulas.
Nesses muitos anos, meus caros, além do meu bebê, eu tive três pessoas ao meu lado: meu pai, minha mãe e minha irmã. Sem eles... não sei o que teria sido de mim.
Nesses anos, o amor era motivo de tristeza, já que ninguém gosta de apresentar para a família uma suburbana, recepcionista, mãe solteira, por mais bonitinha que ela seja. Ainda mais se ela for bocuda, se falar demais ou um pouco mais alto... “Essas são para comer”, como se diz por aí...
Nesses anos, amigos, por mais que eu trabalhasse, ganhasse pouco e criasse meu filho com a ajuda dos meus pais e minha irmã, eu era tachada de puta pelas línguas hipócritas. Diziam que eu não trabalhava nada, que eu dormia com meus chefes. E, assim, garantia meu sustento.
A verdade curiosa é que jamais dormi com chefe algum, em toda a minha vida. Mas se tivesse dormido, o meio das minhas pernas sempre foi meu mesmo...
Enfim, foram anos bem difíceis, com luz cortada inúmeras vezes, com pedidos para descer pela porta da frente de ônibus, com despejos, com brigas familiares por falta de grana.
Foi duríssimo.
Mas tem uma coisa que mudou tudo. Com muita dificuldade e lágrimas, mas mudou: eu sou uma mulher branca e bastante padrãozinho de beleza. Com “cara de bem-nascida”, como me disseram algumas vezes, com cara de gente fina, porém, sem um tostão no bolso. Uma grande amiga, que se ler vai se reconhecer nesta parte, brincava comigo, dizendo que eu abria a carteira com toda pose e tirava uma nota de 1 real – na época das notas de 1 real.
É verdade.
Essa grande amiga cuja vida foi infinitamente mais dura que a minha, que viveu um relacionamento abusivo, que teve de se prostituir muitas vezes para ganhar a vida, foi impossibilitada de terminar a faculdade e teve que se prostituir para viver. Vinda da Bahia, uma linda mulher negra, poderosa... que muitas, muitas vezes, me ajudou financeiramente. Não me esqueço.
É... ser branca, ter cabelos e olhos claros, ser padrão, não me fez ter que trabalhar menos, não. Não me fez deixar de ter que correr atrás do meu, não.... Porém, com tudo isso, eu não tive a necessidade de optar pelo trabalho que de fácil não tem absolutamente nada. Eu tive alguns privilégios sim, meus caros, e eles fizeram toda a diferença nas minhas escolhas, na minha vida.
Não só por isso, mas também graças a isso, eu fui conseguindo algumas oportunidades que foram negadas a tantas outras pessoas. Certa vez, consegui um emprego e depois meus chefes disseram que eu consegui por causa da minha aparência. Mostraram meu CV escrito “ok. Gostosa”. Me senti constrangida, para dizer o mínimo.
Mantive-me nesse emprego por meus méritos, e fui indicada para trabalhar na empresa que comprou a empresa que me empregou primeiro, por meus méritos. Mas eu entrei por ser branca e padrão, por não parecer uma mãe solteira da periferia... embora eu sempre tenha sido.
Eu fiquei com a vaga de uma moça que era deficiente. Que não ganhou o cargo exatamente por ser deficiente. Ela tinha muito mais qualificação que eu, porém, tinha também uma formação deficiente na perna em razão da poliomelite – na época não havia política de cotas para deficientes em empresas, ninguém falava disso.
Isso me afetou bastante, ficou em mim como algo a pensar, refletir... mas eu continuava empregada e podendo criar meu filho. A vida seguiu. Ganhei muitos empregos mais, muito mais colocações, afinal, eu era magra, branca, padrão, sem nenhuma deficiência...
Eu tinha uma irmã, uma grande parceira, alguém que sempre foi das pessoas mais importantes da minha vida, que já foi para o país de verão, cedo demais... Laura era alta, uma mulher grande de 1,80 e que pesava mais de cem quilos... Ela teve muita dificuldade de arrumar empregos, de comprar roupas, de namorar... E como será que foi para ela ouvir a vida inteira que nós não éramos parecidas. Isso me feria... Mas certamente a feriu muito mais. Quantas vezes talvez eu a tenha ferido, sem querer, com alguma fala dura tão peculiar a mim, como irmã mais velha...
Laura tinha um coração grande, como a pessoa grande que ela foi... a segunda mãe do meu filho. E tudo o que eu queria era poder fazer pelos filhos dela o que ela fez pelo meu. Mas nunca vai acontecer. Seu grande coração, um dia, não aguentou mais estar aqui e simplesmente parou.
Entrei, fiz, terminei a minha faculdade por que consegui FIES, minha gente. Entrei, fiz e terminei por que eu tinha pai, mãe e a Laura a olharem meu filho. Sempre tive um teto – alugado, sim, às vezes moramos de favor... muitas vezes fomos mandados embora por que atrasamos o aluguel.... mas sempre tive um teto. A gente dava um jeito. Eu tive com quem contar, por mais difícil que tenha sido... eu tive minha família do meu lado.
Não foi fácil, mas eu tive privilégios. Eu nasci numa família padrão, que se manteve unida diante das intempéries da vida. Tem muita mãe adolescente que não tem isso... Na rua da casa da minha avó, tinha uma amiga, da mesma idade (crescemos juntas), mesmo mundo, mas nascida negra, numa família com histórico de uso de drogas, abusos. Ela hoje tem quatro ou cinco filhos, de pais diferentes. Ela ainda mora no mesmo lugar, um dos filhos mais velhos (que brincou com meu filho, inclusive) já foi preso...
Ela é ainda tachada de várias coisas hoje, enquanto eu – que também fui a mulher para comer e não para casar, nas bocas malditas – sou a guerreira que se formou e deu orgulho, exemplo de superação...
Me orgulho de minha trajetória, sim... Mas existe algo nisso tudo que me faz sempre ver a imagem da Liz (nome fictício para a minha amiga) e de seus filhos...
Isso sempre esteve em meu coração, me fazendo pensar. E se eu não tivesse a minha família... e se eu fosse negra?
Hoje eu sou uma mulher casada com um grande homem que me ama e ama meu filho, somos formados, pós-graduados, temos uma empresa, temos casa própria com vista para a serra e portas altas de vidro que me permitem vê-la, temos carro, nosso filho está fazendo faculdade e residência em São Paulo, tenho grandes amigos, uma vida próspera. Não é uma vida de rico, mas é boa, com muito trabalho ainda hoje, mas é boa. Sou grata demais e trabalho bastante para manter isso, trabalho para dar o meu melhor... por que houve muito suor para a conquista de tudo isso. Parece ser legal ser nosso amigo, não é?! Parecemos exemplos de vida...
Mas e se fôssemos um casal gay? E se ele fosse uma mulher... ou eu fosse um homem?
Toda vez que eu o abraço, que eu o beijo, toda vez que brinco maliciosamente com ele em público, fico pensando nos meus amigos gays que não podem viver seus amores em liberdade, como eu posso.
Quando eu me casei, meu filho tinha 11 anos... Antes disso, ouvi inúmeras vezes que deveria ter alguém, que eu deveria arrumar um bom homem para mim e para o meu filho e me casar. Quando, finalmente, me casei, foi uma alegria geral. Fico me perguntando se todos ficariam felizes se ele fosse uma mulher... ou se nós fôssemos dois homens se casando e criando um menino de 11 anos...
Então, eu também sou muito privilegiada pelo relacionamento heterossexual padrão que tenho, ouço muitas vezes que somos exemplo e casal. Mas nunca ouvi que meus amigos e amigas gays, casados, são exemplo de relacionamento. Muito pelo contrário... Eu ouvi certa vez que algumas pessoas, parentes, que não gostavam de estar em minhas festas de aniversário por que nelas havia muitos homossexuais... Pois é...
Essas pessoas me lembraram de outra situação. Eu tive um longo relacionamento com um rapaz, certa vez. Um homem muito esforçado, muito trabalhador. Muito bonito e negro. Talvez ele jamais tenha sabido as inúmeras vezes que me perguntaram se eu não me olhava no espelho, se eu não me dava valor... É... Eu nunca tive coragem de contar a ele esse tipo de coisa que eu ouvia, pois eu jamais o quis ferir com esses absurdos.
Enfim, amiguinhos... são muitas, muitas histórias... e eu poderia contar muitas e muitas mais... Eu nem falei de religião... que seria um assunto e tanto para trazer nessas linhas...  Mas elas já são muitas.
E se você chegou até aqui nesse texto, obrigada por ler parte da minha história de vida. Peço que você não me veja como uma incrível pessoa, nem talvez como alguém que está escrevendo esse texto e contando essas coisas para se vangloriar de algo. Se pareceu isso, devo refazer minhas palavras.
Minha intenção é dividir... refletir.
Olho para o passado e me lembro de quem estava lá comigo em todas essas e outras histórias... Quem sempre esteve comigo de verdade?
Quem me olhou mais que um pedaço de carne?
Quem me respeitou como mulher?
De quem eu tirei a vaga?
Quem eu ultrapassei, superei pelos meus privilégios?
Quem contribuiu para que eu fosse quem sou?
Sim, me orgulho muito de quem sou. Minha vida são minhas escolhas... Então, eu jamais poderia escolher qualquer caminho que ferisse, que ameaçasse aqueles que comigo estiveram e que são um comigo, pois sou fruto de um pouco de cada uma dessas pessoas que citei... e outras tantas.
Eu tenho orgulho de quem sou, mas nem sempre foi assim. E se hoje é assim, é por que todas essas pessoas existiram em meu caminho. Nós somos uns os outros, de certo modo. Eu devo a elas e farei o meu melhor, me esforçando para me corrigir quando errar, me esforçando ao máximo para fazer deste um lugar melhor.
Por isso, estou com todos vocês para sempre, se vocês assim me quiserem.
Logo farei quarenta anos nesse Brasil que se apresenta... e um filme passa pela minha mente. Reflexões que queria dividir com vocês.
Venha o que vier, não me calo.
E se você acha que é mimimi, bobagem... vá com ter com os teus e me deixe aqui com os meus, com meus mimimis, com minhas bobagens, com meus pensamentos e minhas pessoas... pois sou e pertenço a tudo isso e elas são e pertencem a mim. Somos um.
E mesmo que haja um sim, nós estaremos aqui para lembrar que #elejamais !
Beijos,
Lua Serena