10 de fevereiro de 2011

A Sacerdotisa e A Imperatriz: dois aspectos do Sagrado Feminino



Motivada pelos debates no Sibilando, círculo virtual de estudos de Tarô que coordeno, resolvi escrever um pequeno artigo para falar das duas Mães do Tarô: A Sacerdotisa e A Imperatriz.


Muita gente, no comecinho dos estudos, tem certa dificuldade com esses dois arcanos. Em geral uma – A Sacerdotisa – é vista como a senhora da intuição, a distante enigmática; enquanto a outra – A Imperatriz – é vista simplesmente como a mãe nutridora.


A maioria se espanta quando eu digo que a Sacerdotisa é também uma mãe. Espantos e revoltas? Pois eu reafirmo, A Sacerdotisa é mãe também... ela é a nossa mãe espiritual. Esse conceito foi trazido pela primeira vez, se não me engano, por Waite, que, inclusive, cunhou a expressão Mãe Celeste. Sim, A Sacerdotisa é a mãe celeste, a mãe espiritual. A Imperatriz é a mãe terrestre, a mãe material.


Vamos entender as coisas de uma forma pagã (aos que não são pagãos ou que àqueles que não possuem conhecimento dos conceitos ligados ao Paganismo, peço uma licencinha para poder explicar esse ponto sob a ótica para mais confortável).


Pois bem, a figura da Deusa, pólo feminino da criação, ou como queiram chamar o Sagrado Feminino, se manifesta de inúmeras formas e é conhecida por inúmeros nomes... Isis, Demeter, Astarte, Bastet, Danu, Hécate, etc. Cada uma das faces do Sagrado Feminino possui características próprias e é um ser próprio (mais ou menos como falar que nós todos somos um... cada qual é um ser único e parte do todo). Assim, no decorrer da história dos mundos, esses seres foram sendo conhecidos pela humanidade... e todas essas faces, todos esses seres, todas essas Deusas são consideradas nossas mães, ou nossa mãe (se olharmos o Sagrado Feminino como um todo).


No entanto, cada uma dessas faces, ou cada uma dessas Deusas, como queiram, tem características próprias, algumas são até bem terríveis, mas não deixam de ser mães porque são faces do Sagrado Feminino. Nesse sentido, temos uma classificação básica em que podemos (se é que podemos) encaixar algumas Deusas como Mães celestes e Mães Terrestres (ou Deusas Celestes e Deusas Terrestres). Celeste, sim, ligada aos céus, às estrelas, aos astros, à lua, ao universo, à mente, ao consciente e inconsciente, etc; e terrestre sim, ligadas à Terra, à terra, aos animais, às águas, etc. Algumas nem mesmo parecem nossas mães, não é mesmo? Um exemplo disso é a própria Deusa Perséfone... ela é a filha de Demeter, e sempre nos remete à ideia de juventude. Mesmo assim, ela é uma face da Mãe, ela é um aspecto do Sagrado Feminino. Costumo fazer uma analogia com duas Deusas do panteão afro-brasileiro para ilustrar mais ainda esse papo. Iansã e Iemanjá. Iansã é a mãe espiritual, Iemanjá a mãe material. A Sacerdotisa é amistosa como Iansã... já a Imperatriz é amorosa como Iemanjá. Ou seja, A Sacerdotisa é amistosa, é amiga, chora nosso choro, briga com todos por nós... mas chama a nossa atenção quando estamos errados e não nos pega no colo. Se formos ao chão por imprudência, ela vai ficar do nosso lado, vai nos ajudar a levantar, mas não vai passar a mão na nossa cabeças... Não esperem isso da Sacerdotisa, nem de Iansã. Já A imperatriz é a mãe amorosa e nutridora de todos com seus fartos seios, pode ser super protetora, sensível, a super mãe que protege suas crias.


Não entendam os termos espiritual e material de forma literal, tampouco pensem nesses dois arcanos apenas sob os prismas que eu estou abordando... Além de ser um “sacrilégio” com o Tarô, é também um “sacrilégio” com as Deusas... muitas vezes tentar classificar os Deuses torna a gente mais e mais ridículos... porém, é uma forma de vocês compreenderem os motivos de eu dizer que A Sacerdotisa é A Mãe Espiritual.


É claro que todo esse assunto dá pano para manga. Há quem defenda a ideia de que na verdade todos os Deuses vem “abaixo” de uma força única, desconsiderando a idéia de que todas as Deusas são aspectos de uma Deusa, etc e tal. Mas enfim... na minha cabeça e vivência, os Deuses são como nós, pequenas partículas de um grande e imenso todo. Todos nós, Deuses e humanos, compomos a existência e o Sagrado Todo, que por sua vez, em sua imensa complexidade, pode ser compreendido como dotado de polaridades... O Sagrado Feminino e o Sagrado Masculino. Mais ou menos isso.


Então, partindo do pressuposto de que para muitos de nós, pagãos, mesmo uma Deusa jovem pode ser chamada e tida por nós como nossa mãe... vamos ao Tarô.


Veja que tanto a carta da Sacerdotisa como a carta da Imperatriz falam do Sagrado Feminino, dessa força feminina da criação. Essas duas cartas são a personificação dessa força.


No caso da Sacerdotisa nós temos o feminino intuitivo, a sabedoria, o conhecimento, os mistérios ocultos. É aquela que conhece e guarda os segredos. Para Waite, A Sacerdotisa, em alguns aspectos, é uma das mais sagradas cartas dos arcanos maiores, pois simboliza a Mãe Celestial, a Mãe Espiritual, A Noiva Sagrada... a metade espiritual feminina do todo individuado. Por essa razão, ao contrário do que muitos pensam, A Sacerdotisa somente será uma carta que denota frieza se estiver em mau aspecto, pois em sua essência, ela é puro amor espiritual, ela é o enigma do próprio amor. Talvez a Deusa em que eu mais lembre ao me deparar com a A Sacerdotisa seja Aglaia, a Deusa da intuição e do conhecimento, para os gregos.


Já no caso da nossa querida Imperatriz, temos a geradora de tudo, o Feminino como origem de tudo o que existe, a mãe do mundo, e, sob outro aspecto, a própria Terra. Nesse sentido temos muito explicita a idéia de Grande Mãe. Ela é para os Incas Pachamama (Pacha significa universo e mama mãe), para os egípcios ela é Mut, para os gregos é Deméter e para os hindus ela é o tríplice Sagrado Feminino, as shaktis.


Há muitas correlações que poderíamos arriscar fazer para sustentar a idéia de que ambas são mães... Por exemplo, eu vejo isso muito claramente também se deixarmos só um pouco de lado a visão da Sacerdotisa e Imperatriz como personificações do Sagrado Feminino e trazermos essa questão bem mais para a prática da Arte.


Podemos fazer uma breve reflexão. A Sacerdotisa pode ser considerada a nossa sacerdotisa na Arte, a sua guia, a sua mãe espiritual... enquanto A Imperatriz seria a nossa mãe, aquela que nos pariu, nos nutriu, nos cuidou. Ambas tem aspectos de Mãe, ambas orientam, de ambas somos, de certo modo, filhos... Vejam que embora a sacerdotisa de um coven não tenha parido, é muito comum serem os sacerdotes tratados por pai e mãe... e esses também tratam seus dedicados e iniciados por filhos e filhas.


Enfim, tanto A Sacerdotisa, quanto a Imperatriz são aspectos do Sagrado Feminino, são aspectos da força feminina, a porção sagrada feminina do todo... e o Sagrado Feminino é, nada mais, nada menos, que A Deusa, A Mãe.
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