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Giremos em torno do caldeirão,
para lá jogarmos intestinos envenenados.
Sapo, que durante trinta e um dias
e trinta e uma noites
ficaste dormindo embaixo de pedra fria,
teu veneno vertendo, ferve,
em primeiro lugar na panela encantada.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Filé de serpente dos pântanos,
no caldeirão ferve e cozinha.
Olhos de camaleão e dedo de rã,
pêlo de morcego e língua de cão,
forquilha de víbora e ferrão de lacrau,
perna de lagarto e asa de corujinha,
para fazer um encantamento de poderosa força,
fervei e borbulhai, como filtro infernal.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Escamas de dragão, dente de lobo,
múmias de feiticeiras, mandíbulas e estômago
de voraz tubarão,
raiz de cicuta arrancada nas trevas,
fígado de judeu blasfemo, fel de bode
e ramos de teixo cortados em noite de eclipse da lua,
nariz de turco e lábios de tártaro,
dedo de criança estrangulada ao nascer
e lançada pela mãe num fosso,
fazei que a massa fique espessa e viscosa.
Acrescentemos, em nosso caldeirão,
entranhas de tigre como ingredientes.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Vamos esfriá-lo com sangue de babuíno
para que o feitiço seja firme e forte.


in Macbeth, Shakespeare (1606)



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Já viraram porcos

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Sexta-feira, Fevereiro 13

Identidade: BRUXA

Alguns conceitos mudaram desde o meu primeiro contato com o mundo pagão.

De início, a maioria das pessoas se intitulava bruxa com muita naturalidade e até com certo orgulho. Para muitos era como se ser bruxa ou bruxo fosse mesmo um título.

Como bruxas, nos sentíamos diferentes, especiais, originais, dotadas de um conhecimento que nem todo mundo tinha.

Talvez esse quadro tenha se formado em razão da bibliografia à disposição. Os livros relacionados à Bruxaria tratavam de enaltecer o ser bruxa, filha da terra, mulheres que operavam sua alquimia na cozinha, entre os temperos e as panelas.

Todas as mulheres que, de alguma forma, se identificasse com as poéticas palavras dos livros passava a se autodenominar bruxa.
Depois de um tempo, houve quem levantasse a bandeira do não-bruxa dentro do próprio Paganismo. O argumento era que a palavra 'bruxa' fora usada como forma de estigmatizar pessoas, carregada, portanto, de uma conotação terrível e de baixa energia. Sendo assim, não seria o mais acertado usarmos a palavra 'bruxa'.

Nesse meio tempo, havia aqueles que defendiam que bruxa que é bruxa pratica Bruxaria. Trata-se, portanto, de uma religião. Dessa forma, impossível dizer que uma bruxa possa rezar o terço católico ou benzer usando preces cristãs ou de outra religião.

Pois bem, o tempo foi passando e nem precisou de muito tempo para que as pessoas acabassem, cada qual, seguindo seu rumo, umas desistiram de se autodenominar bruxas, outras acabaram por defender a Bruxaria como religião, outras 'esqueceram' a Bruxaria e passaram a se autodenominar 'caminhantes' ou, simplesmente, 'pessoas comuns'.

Então eu acabo, hoje, por me perguntar o que de fato é uma bruxa.

Pensei um pouco e cheguei a muitas conclusões, dentre as quais que, de certa forma, cada um desses pontos-de-vista tinham (ou têm) lá suas coerências.

Vamos falar do primeiro... AS BRUXAS QUE POETIZAM.

Nada mais poético e mágico que transformar a nossa casa, em especial a nossa cozinha, em um depósito de feitiços, encantamento e sonho.

Eu, muitas vezes, lendo alguns livros das bruxas que poetizam, me deliciei com a forma divertida, poética e mágica de descreverem o sentir bruxa, o viver bruxa. Me identifiquei muitas vezes, aprendi uma porção de coisas com aquelas palavras doces e cheirosas.

Para mim, as bruxas que poetizam têm a magia do viver a terra, possuem a graça e a força da Deusa, nos ensinam muito com esse lado poético, tratando a Bruxaria como ela deve ser tratada: como Arte.
Já AS BRUXAS QUE SE ESCONDEM... (eu acredito piamente que tem gente que esconde o jogo!) possuem características muito interessantes.

Já ouvi dizer, ou li em algum lugar, que bruxa que é bruxa não diz que é bruxa.

Essas pessoas que não querem o rótulo de bruxas, em minha opinião, não se curvam diante de rótulos, não procuram se dizer ?bruxas? para receber aplausos ou para ter um séquito. O que para mim tem tudo a ver com ser bruxa. Uma bruxa mesmo não precisa de rótulos, não precisa de seguidores.

A Bruxaria não prega o proselitismo.

O terceiro grupo, o das BRUXAS ATIVISTAS, talvez seja o mais forte dos três grupos.

Essas bruxas defendem sua Arte, exigem respeito, dão a cara à tapa, vão à luta pela sua Religião. Vivem, respiram Bruxaria e são ativas, reúnem pessoas para falar da Deusa e do Deus, esclarecem.

Existe muita confusão quando o assunto é Bruxaria...
As bruxas ativistas são, talvez, as que mais trabalhem em favor da Bruxaria, pois procuram desmistificar e tirar das sombras a Arte.

Vejo nos três grupos coerência e tenho minha opinião sobre se chamar ou não de bruxa. Mas procurei aqui levantar uns questionamentos acerca desse tema porque, de fato, creio que tudo o que nos separa é infinitamente menor daquilo que nos une. E isso quem disse foi Doreen Valiente.

Tenho amigos no grupo dos que poetizam, amigos no grupo dos que se escondem e amigos no grupo dos ativistas.
Cada qual com suas razões e seus argumentos para discordar ou concordar uns com os outros.

Mas, para mim, todos estão vivendo o Paganismo, ou Neopaganismo, cada um à sua maneira.

Ser bruxa, ser pagã, ser caminhante, ser uma pessoa comum... Cada um que assuma sua postura (ou não assuma), cada um que se denomine como quiser (ou não se denomine), mas que o façam em prol de algo maior, seja uma crença, uma ideologia, uma filosofia, uma religião, uma postura.

Meu desejo é que o Paganismo brasileiro seja mais unido em sua diversidade, que possamos conviver com o diferente, com aquele que pensa diferente.

Esse é, para mim, o mais importante e é o que nos identifica.

Eu opto por me identificar como BRUXA, mas dependendo da pessoa que pergunta eu me recolho porque não sou dada a ter gente pendurada pedindo feitiços ou iniciações. Portanto eu também opto por me esconder de vez em quando, apesar da minha identidade de bruxa.

E também gosto de poetizar e gosto do ativismo. De vez em quando eu desato a escrever (com certeza não tão bem como muitas bruxas que poetizam) e de vez em quando eu desato a defender a minha Religião, com questionamentos sempre, pensando e agindo.

Posso viver todo esse (falso) antagonismo?

Sou diferente de alguns... Mas será que somos assim tão diferentes?

Eu fico a me perguntar.

Beijos e Bênçãos,
Lua Serena

Figuras: desconheço os autores, se alguém souber me passe para eu colocar nos créditos. :)

publicada por Lua Serena às 8:36 PM

2 Comentários:

Blogger Marcos Miorinni disse...

Parabéns
pelo blog,
muito bom.

abraços fraternos
Marcos Miorinni

9:11 PM, Fevereiro 14, 2009  
Blogger Dani B. disse...

Adorei o post, acho que na presença das pessoas (no meu circulo de amizadades ninguém compartilha as minhas crenças) eu me escondo. Quando estou sozinha, sou bruxa que poetiza!

Parabéns pelo blog. Vou estar sempre por aqui... daqui pra frente!

7:35 PM, Março 22, 2009  

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