12 de setembro de 2013

O CULTO AOS ANTIGOS DEUSES

Como pagãos, dizemos que cultuamos Deuses.
Cada um de nós tem um jeito de encarar isso, seja politeísmo, panteísmo, duoteísmo, dentre outras tantas formas de “teísmos”. Mas o fato é que todos nós temos alguma deidade – ou algumas – de coração. A essa relação de coração chamamos de culto.
Mas...O que realmente significa cultuar uma deidade?
Será que cultuamos mesmo ou fazemos dos Deuses um monte de potes de desejos, aos quais recorremos quando queremos algo?
“Vou cultuar Afrodite, amo Afrodite... Iupi! Sou super ligada em coisas do amor e desejo arrumar um namorado urgente.”
Será que os cultuamos ou os encaramos como signos para encontrar desculpas para certas condutas?
“Sou filha de tal Deus, por isso sou assim.”
Será que esses são exemplos de quem realmente cultua alguma deidade?
Em primeiro lugar é muito importante que nós pensemos na palavra “culto”.
Essa palavra vem do latim e significa cuidado, trabalho; cultivo, reverência. Acho bem interessante que ela guarde relação com cultivo, que lembra o trabalho com a terra... Será que isso não deveria fazer mais sentido ainda para pessoas como nós? Pessoas pagãs... pessoas do campo? Pois é.
Obviamente os tempos mudaram e poucos de nós são do campo... Somos os neopagãos, aqueles moderninhos que buscam informações sobre os queridos e antigos Deuses na internet. Ok, mas em nossa essência ainda somos aquele antigo povo da terra, que olhava as estrelas e sentia os ciclos da vida na natureza em nossas próprias vidas. Ser pagão, um neopagão, é resgatar isso e trazer para o cotidiano, muitas vezes cosmopolita, o cuidado, o cultivo, o trabalho com os Deuses Antigos... honrando e cultuando o antigo no moderno.
Esse é nosso papel.
E como atores de tal papel, temos o culto, o cultivo, o trabalho com os Deuses pagãos, os Antigos. Isso significa muito mais do que acender uma vela rosa para Afrodite ou vermelha para Osíris. Muito mais.
Primeiro, significa que devemos estudar determinada deidade. Esse é o primeiro passo. Busque informações em fontes confiáveis. Na dúvida, opte sempre pelos livros. E, dentre esses, busque informações sobre quem os escreveu. Verifique o que se comenta sobre determinado autor. Mas busque nadar contra a corrente, ouça os argumentos também de quem não gostou da obra daquele autor. Aprendemos mais ouvindo os muitos lados das histórias. Seja crítico.
Segundo, dê preferência a obras que vão além do óbvio e superficial. As obras superficiais são sempre iguais a outras tantas e pouco – ou nada – se aprofundam na cultura do povo ao qual determinada deidade está relacionada. E estudar a cultura, o pensamento, a forma de vida de um povo que cultuava aquela deidade é extremamente importante. É, na verdade, imprescindível para compreender uma deidade, pois todas as informações que temos dos Deuses vêm por intermédio de seres humanos. E seres humanos possuem limitações e contornos que são baseados em um contexto histórico, em uma forma de pensar própria que
vai diferir um muito da forma como hoje encaramos um culto a qualquer coisa, no Brasil, do ano de 2013, por exemplo.
Uma boa dica é ir atrás de obras “chatas”. Entre aspas por que a maioria das pessoas vai achar chato o que é bom, o que vai te fazer raciocinar, o que precisa pensar, o que nos leva a colocar a cabeça para fazer relações e correlações. A maioria das pessoas prefere as receitas prontas e as tabelas de classificação dos Deuses, uma coisa mais ou menos assim:
AFRODITE: deusa do amor e da beleza. Gosta de rosas, a pomba é seu símbolo e seu dia é a sexta-feira.
Então, pega-se uma rosa e uma foto de uma pomba e acende-se uma vela para essa Deusa na sexta-feira, pedindo um novo amor.
Isso culto?
Afrodite ouvirá?
Bem, aí entramos em outras tantas questões... Mas o fato é:
Essa pessoa se ama a tal ponto de atrair um amor para sua vida? Essa pessoa busca um amor ou busca uma fuga para a imensa falta de amor e para o enorme sentido de desvalor de si mesma?
Ainda bem que os Deuses não são saquinhos de desejos, se não estaríamos perdidos!
E outra coisa: culto aos Deuses não é isso.
Cultuar uma Deidade envolve estudos, como já falei, mas envolve também o trabalho em si. Ou seja, depois de estudar uma deidade, é hora de se conectar com ela.
Estudar antes é importante por que do contrário, corremos o risco de “viajar na maionese” na hora de nos conectarmos com uma deidade. Se bem que os perigos da viagem na maionese sempre existirão... Mas o estudo, o tempo de prática, a auto-observação, a conversa com outros praticantes, a autocrítica e outros artifícios ajudam a minimizar essas “jornadas hellmísticas”.
Estude e vá se conectar. Medite com os Deuses, mas não faça disso uma coisa chata, maçante e massacrante. Existem muitas formas diferentes de meditar, uma delas é dançando. Se você ao invés de praticar o meditar, vc pratica o “me deitar”, experimente movimentar seu corpo enquanto visualiza uma jornada ao templo de determinado deus ou deusa. Feche os olhos e
dance, balance seu corpo... isso pode ser muito útil aos que não conseguem ficar parados, relaxados, mas com a mente atilada para uma jornada.
Nessas meditações, jornadas, encontros, não importa o nome, é que estabelecemos uma aproximação real com a deidade que queremos cultuar. Esses momentos são muito bonitos e repletos de experiências inesquecíveis que, aos olhos de quem nunca vivenciou, são bobagens, coisas diminutas que alguns superestimam... mas para quem vivenciou, ao menos uma vez, essas experiências, sabe do que estou falando.
Pois bem. Depois de estabelecida a conexão entre nós e a deidade – e isso não se faz apenas em um cinco minutos em que você imagina o Deus lá na sua frente – é hora de trabalhar aqui no físico, aqui no tridimensional. É hora de ritualizar.
Aí vêm as oferendas, as festas, a dança, o riso, as invocações, as celebrações, a comunhão. E talvez, TALVEZ, venham os pedidos. Digo talvez por que, ao contrário do que se vê por aí, cultuar não é barganhar com o invisível... Tipo, “Te faço uma oferenda e você me dá riqueza”.
Conforme vamos praticando a Arte, percebemos que o buraco é muito mais embaixo, e que somos responsáveis, somos moldadores de nossa realidade não só por meio de feitiços ou de oferendas aos Deuses, mas em nossas ações. E quando essa noção toma conta de nossas vidas, o que mais fazemos é agradecer, é festejar junto aos Antigos pela nossa capacidade de vivenciar os ciclos da vida como moldadores da nossa própria realidade. Eis o mais incrível desejo que os Antigos podem realizar, eis o maior poder que podemos receber dos Deuses que cultuamos, que cuidamos... pois com eles trabalhamos. Juntos. Sempre.

Beijos,
Lua Serena
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