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Giremos em torno do caldeirão,
para lá jogarmos intestinos envenenados.
Sapo, que durante trinta e um dias
e trinta e uma noites
ficaste dormindo embaixo de pedra fria,
teu veneno vertendo, ferve,
em primeiro lugar na panela encantada.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Filé de serpente dos pântanos,
no caldeirão ferve e cozinha.
Olhos de camaleão e dedo de rã,
pêlo de morcego e língua de cão,
forquilha de víbora e ferrão de lacrau,
perna de lagarto e asa de corujinha,
para fazer um encantamento de poderosa força,
fervei e borbulhai, como filtro infernal.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Escamas de dragão, dente de lobo,
múmias de feiticeiras, mandíbulas e estômago
de voraz tubarão,
raiz de cicuta arrancada nas trevas,
fígado de judeu blasfemo, fel de bode
e ramos de teixo cortados em noite de eclipse da lua,
nariz de turco e lábios de tártaro,
dedo de criança estrangulada ao nascer
e lançada pela mãe num fosso,
fazei que a massa fique espessa e viscosa.
Acrescentemos, em nosso caldeirão,
entranhas de tigre como ingredientes.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Vamos esfriá-lo com sangue de babuíno
para que o feitiço seja firme e forte.


in Macbeth, Shakespeare (1606)



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Segunda-feira, Maio 18

ARCANO XV - O DIABO

O Diabo, como é conhecido este arcano, também padece do problema da incompreensão. Tido como um arcano que prenuncia o mal, a traição, o engano, os vícios... é temido por muitos.
Mas assim como muitas outras cartas, O Diabo não simboliza apenas isso e nem é aquilo que a visão deturpada de tanto tempo nos passou. É preciso olhar mais profundamente para ele para compreender toda a sua complexidade.
O Diabo simboliza aquela situação em que estamos diante de nossas sombras, daquele aspecto de nós mesmos que detestamos encarar. Ele aparece quando estamos imersos naquela parte de nós que não mostramos nem para nós mesmos, ou quando é preciso encarar todas as nossas fraquezas, medos, erros e vontades escondidas no mais recôndito do nosso ser. Ele simboliza todas a ilusões que criamos para nos satisfazer e para nos enganar... não, ele não é um ente que as traz, ele mostra a nós que nós mesmos criamos essas ilusões e nos tornamos escravos delas. Situações que não nos fazem lá muito bem, mas que por algum motivo não conseguimos, ainda que provisoriamente, sair delas... viciamos em vibrar naquela energia. É por isso que encontramos na carta do Diabo, na maioria de suas representações, dois seres humanos acorrentados, amarrados, de alguma forma restringidos, enquanto O Diabo as controla.
Na verdade, O Diabo apenas faz o seu trabalho, nós é que não o compreendemos. O Diabo é o condutor do êxtase, do corpo, do sexo, de tudo aquilo que é material. E nós, muitas e muitas vezes, apenas nos deixamos levar por tudo isso. Escravidão. Ele não nos escraviza, ele apenas faz o trabalho dele... Tenham isso em mente e notarão o quanto somos responsáveis por nossas vidas. Não há alguém para culpar, embora sempre busquemos isso. O Diabo nos mostra também essa característica, o de procurar um bode expiatório. Aliás, ele é o próprio símbolo do bode expiatório, pois ele mesmo se tornou isso para a humanidade que, temerosa em assumir seus impulsos, rejeitando a sombra e ignorando a existência do Diabo acaba por tornar-se vítima manipulada. Somente quando encaramos o Diabo dentro de nós é que somos nós mesmos por completo.
O Diabo, então, não é o mal! Somente vivenciando esse aspecto de nós mesmos aprendemos a outra lição desse Senhor: a alegria de estar vivo, de ser matéria, de ser corpo, de fazer sexo, de comer, de ir ao banheiro.
A humanidade negou O Diabo por não compreende-lo, a humanidade o teme por não querer enxergar que, na verdade, ele é um aspecto da própria humanidade.
“Deus fez o homem sua imagem e semelhança.”
Ele é o fruto da árvore proibido, que sempre simbolizou somente o conhecer do bem e do mal. O Diabo nos ensina, e muito, que somente é possível equilíbrio se conhecer o nosso bem e o nosso mal, e o bem e mal de tudo. Isso é completude. Mas só podemos vivenciar o mal... vivenciando aquilo que mais tememos. Não me admira que essa figura tenha sido transformada em algo tão amedrontador.
Ele é o poder oculto que constrói e destrói. Ele é aquele que escancara as nossas portas e janelas, nos mostrando como insistimos e negar nossos próprios erros, nossas próprias ações. Ele não tinha nem de longe como ser suave, fácil, tranqüilo.
Isso é O Diabo!
Aquele que nos força a trazer à tona tudo aquilo que esforçamos em esconder. Ele simboliza o engano e a traição sim, mas muito mais profunda é a traição que fazemos conosco ao negar esse lado sombrio.
Ele é implacável. Não há como fugir. O grande lance é esse: quanto mais se foge, mais escravo você fica.
Numa jogada, analisar as cartas ao redor fará toda a diferença, pois ele poderá simbolizar os enganos, as mentiras, as trapaças... mas também poderá simbolizar a paixão, o sexo, a alegria de estar vivo e pisando a terra. Sinta essa carta com todo o seu corpo quando estiver lendo as cartas. Analise bem... O Diabo engana!

PALAVRAS-CHAVE: desejo, instinto, impulso, potência, possuir, matéria.

PERSONALIDADE: uma pessoa apaixonada, criativa, produtivo ou destruidor, que utiliza dos meios que forem necessários para conseguir o que deseja.

ASPECTOS POSITIVOS: diplomacia, poder, persuasão, influência, desejos, sexo, o corpo, o dinheiro, a alegria, o êxtase, realizações materiais, dominação das massas, sensualidade, criatividade, vontade firme.

ASPECTOS NEGATIVOS:
ilusão, mentira, engano, sucesso efêmero, vícios, magia negativa, paixões descontroladas, disputas, confusão, desejos destrutivos, excessos, precipitação, impaciência.



O DIABO E A SENDA INICIÁTICA

Não é difícil entender por que as bruxas são tão temidas. Esse é o nosso Pai, o Deus Cornífero, o Deus das Feiticeiras.
O condutor da fertilidade, aquele que nos faz sentir a vida correndo nas veias, no corpo, nos fluidos, no nosso fogo mais primitivo. Incompreendido e relegado a qualquer lugar onde seu nome não possa ser mencionado... Por que ele assusta aqueles que não o compreende.
Nesse ponto da nossa jornada, encontramos o aspecto de Deus que nos mostra a nossa escuridão e também a nossa verdadeira luz. Com ele dançamos a dança mágica e frenética da vida. Ele é Pan, é Dionisio, é Cernunnos... é o Deus selvagem que arrasta as Bacantes. Profundamente incompreendido, nos leva a cruzar nossos próprios horizontes, a mirar o espelho do mais profundo do nosso eu.
Cruzar com esse Deus logo após vivenciar a Temperança é uma tarefa difícil, pois implica saber que é possível conciliar, fundir os opostos... mas que para isso é preciso chafurdar na nossa lama... lama que é terra, que é matéria, como é também o Deus Cornífero.
Somente quando vivenciamos esse momento compreendemos por completo o que é a união apresentada na Temperança. Nela a fusão vem acompanhada de um profundo sentimento de emoção, de fluidez. Agora, com O Diabo, estamos diante do espelho negro da bruxa, o espelho negro que é o instrumento usado para ver o que os olhos não deixam... ou não querem: nosso eu mais escondido, mais feio, mais nosso que qualquer outro eu.
O Deus das Bruxas não se presta tão somente como o fertilizador da Deusa, seu chifre simboliza a renovação, a regeneração, o novo que surge a partir do momento em que aceitamos que somos também trevas. Somente quando esses aspectos de nós mesmos são trazidos à consciência é que podemos dizer que tocamos sim boa parte dos mistérios.
É um encontro doloroso por que estamos acostumados a ter Deus como um ser bom sentado numa nuvem, lá longe. Mas para nós, praticantes da Arte, ele está aqui dentro e aí dentro de você, e nas árvores, nas folhas, nas fezes, nos fluidos corporais.
Ele nos ensina que não há a quem culpar, nunca houve. E agora, nesse ponto da caminhada, quando já passamos por muitas coisas no nosso treinamento mágico, que é treinamento de vida, a responsabilidade é maior... assim como é maior a felicidade e a alegria de estar vivo.
Ele nos mostra que o inferno não existe a não ser nos nossos corações, nos nossos atos. Somos responsáveis por tudo!
“Se mal nenhum causar, faça o que desejar”
Foi ele quem nos ensinou isso e somente quando damos a mão para ele e com ele dançamos é que compreendemos a profundidade do querer e ousar. Compreendemos que ele é o Deus da Luz e é também o Deus das trevas... ele é escuridão e fogo...
O preço que se paga por trilhar verdadeiramente o caminho é a, na verdade, o de ser completo. E ser completo implica saber... saber o bem e saber o mal, o nosso e o dos outros... mas principalmente o nosso.
Nesse momento, não posso esconder de vocês a minha emoção ao escrever essas linhas... Ainda que muitos não entendam... Por hora vocês não entendem, mas se continuarem, entenderão. Ah... vocês entenderão.
E àqueles que já dançaram a dança do êxtase com ELE... obrigada por terem deixado as pegadas no caminho, para que eu pudesse seguir, meio trôpega, mas seguindo sempre.
O amor que sinto em escrever essas linhas talvez a deixem um pouco sem sentido... Mas palavras não podem explicitar com exatidão a sensação de encontrar com ele. Mesmo que seja doloroso... é também alegre...
E assim como a Deusa, é só por amor que o Deus faz tudo isso acontecer.


Você, escuridão de onde eu venho,
Eu amo você mais do que todos os fogos
Que cercam o mundo,
Pois o fogo faz
Um círculo de luz em torno de cada um
E então ninguém do lado de fora sabe de você.
Mas a escuridão junta tudo:
Formas e fogos, animais e eu mesmo,
Com que facilidade ela os une! –
Poderes e pessoas.
E é possível que uma grande energia
Esteja se movendo perto de mim.
Eu tenho fé nas noites.

*RAINER MARIA RILKE (retirado do livro O Tarô da Deusa Tríplice)
Fontes das figuras: 1. http://www.intuiosity.com/blog/2009/3/22/saturn-astrologys-benefic-teacher-or-harsh-taskmaster.html
2. http://azurylipfe.deviantart.com/art/Tarot-The-devil-43415452

publicada por Lua Serena às 10:34 PM

2 Comentários:

Blogger Luna Nera disse...

Oi Lua, Oi Povo! que deck lindo, vc conhece o artista???
bjs Poli

8:52 AM, Maio 31, 2009  
Anonymous Lua Serena disse...

Oi, Poli!!

Não sei, mas coloquei o link como fonte... Amei o deck!
Bjos

10:12 PM, Junho 01, 2009  

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