13 de novembro de 2012

Da Magia à Sedução e alguns valores da Bruxaria




Nesses últimos tempos, esse filme tem surgido com certa frequência em minha mente, em minhas lembranças.
Primeiro um grande amigo de caminhada, o Bran, postou uma cena e me carregou aos meus primeiros passos na Arte. Depois foi a Lucinha, outra amiga de longa data, que me mandou outra cena, me trazendo novamente o cheiro doce das experiências vividas.
Como nada é por acaso e tudo, absolutamente tudo, tem algo a nos ensinar. Fui assistir ao filme novamente. E mais uma vez me deliciei com a sua fotografia, com o enredo gostoso e descontraído tratando a Arte com respeito e mostrando bem de perto o que é ser bruxa... ou pelo menos o que deveria ser.
É claro que todo filme precisa daquele brilho hollywoodiano dos efeitos especiais. Lógico, estamos falando de filmes, entretenimento para todos os públicos. Ok, quase todos.
Então, fora esse aspecto mirabolante, mas indispensável aos filmes, Practical Magic ou como quiseram os tradutores para o Brasil: Da Magia à Sedução, mostra alguns valores muito importantes da Bruxaria. Fui assistindo e pensando sobre essas questões.
O filme nos presenteia com valores que muitos acabam esquecendo no decorrer do caminho, conceitos e valores que deveriam nortear os praticantes. E são conceitos e valores tão basilares...
Um desses valores é o de ter respeito com as coisas sagradas e, especialmente, com as coisas sagradas que não entendemos, que ainda não sabemos manipular direito. É não manipular magia sem preparo. Quantas histórias de “cagadas mágicas” você conhece? De quantas você já foi protagonista? É um alerta tão básico, mas muitos se deixam levar por seus desejos descontrolados o por seu ego inflado.
Aliás, o ego inflado é também o que impede muitas pessoas de observar e praticar outro valor muito bem mostrado no filme, e que acaba sendo um desdobramento do que acabei de citar, pois encontra-se na seara do respeito às coisas sagradas.
Estou falando do respeito aos mais velhos, do reconhecer que mesmo tendo potencial, mesmo tendo em si a capacidade de ser grande, precisamos recorrer aos mais velhos, pois eles possuem mais sabedoria, mais prática, mais vida que nós. E, por isso, aprendemos tanto com uma história contada por quem é mais velho que nós. Por isso que na Arte não há hierarquias, mas respeito àqueles que são, de verdade, nossos irmãos mais velhos, nossos pais e mães. Mas é lógico que estou falando de verdadeiros bruxos e bruxas. Mesmo por que não adianta ter muitos anos no currículo de bruxo ou bruxa e ser uma farsa, ser uma mentirinha gostosa que seduz muita gente. E com esse pensamento eu já me remeto a outro ponto reflexivo do filme.
Quando as irmãs Owen se metem na encrenca com a morte do namorado maluco de Gilian, elas precisam recorrer à experiência de suas tias. Tirando, novamente, os efeitos especiais para o deslumbre típico do cinema, quantos bruxos e bruxas você acha que são capazes de lidar com assuntos espirituais sérios? Sérios mesmo! Quantos você conhece que tenham sido treinados e que, de fato, tenham prática para lidar com seres e espíritos de outras realidades, com feitiços de morte ou de destruição? Eu garanto que muitos que lançam maldições (ou dizem que lançam) existem. Mas que saibam desfazer e que tenham sido preparados para isso e que tenha esse tipo de prática, de verdade não da boca para fora, são poucos. Por que será? Será que vivemos numa época em que é muito mais bacana o glamour dos grandes discursos, dos grandes textos, do que o trabalho mágico de verdade? Talvez seja por isso que muitos acabem recorrendo a outras religiões para quebrar feitiços, para encaminhar um espírito, para fazer uma limpeza energética numa casa. E isso é muito triste, pois as bruxas, os bruxos, sempre foram aqueles que curavam, que limpavam... Uma bruxo sempre foi, antes de qualquer coisa, um curador.
E essa cura pode vir muitas vezes de forma “meio torta”... No filme tem uma cena muito interessante, em que as tias das irmãs Owen atendem uma mulher apaixonada por um homem. Elas auxiliam a mulher a fazer um feitiço, mas a alertam sobre as consequências daquilo que deseja. É uma cena muito interessante do ponto de vista da lei do retorno. Não quero discuti-la com você, não é esse o intuito do nosso papo hoje. Mas é te fazer refletir até que ponto a lei do retorno se transformou num ranço do pecado, um artifício do padrão do medo. Já parou para pensar nisso? Boa parte das pessoas não trabalha com magia por medo do retorno... Ora! Isso jamais deveria acontecer, pois a lei do retorno é um norte, é um fato, mas cada um de nós deve saber de nossas responsabilidades. Magia deve ser para quem sabe fazer magia, magia deve ser treinada e direcionada. A Lei do retorno não é e nunca foi um limitador de nossas ações, pois como co-criadores de nossa realidade, estamos sob ela o tempo todo. Que adianta não fazer feitiços por medo do retorno e desejar certas coisas? Dá vontade de rir... Nosso poder pessoal está além dos feitiços e o tempo todo estamos na teia cósmica. O tempo todo.
Outro conceito importante ligado ao filme é o poder pessoal, quanto de poder você coloca em suas coisas, em seus instrumentos, em seus atos? Você consagra seues instrumentos com os elementos, mas e depois? Como você trata suas coisas sagradas? Você de fato coloca seu poder nas coisas? Na vida?
Por falar em poder, o filme mostra também as questões do poder do sangue, o poder dos laços familiares, o poder dos ancestrais. Os de sangue sim, mas podemos estender isso aos nossos grupos, nossas famílias, nossos covens, grupos, tradições, etc. Hoje em dia se banalizou esse conceito de grupo. Qualquer um entra numa tradição, num grupo, pois se distorceu um valor muito importante da Arte: o não proselitismo. O não proselitismo guarda relação com desnecessidade de arrebanhar pessoas para a religião. Por quê? Por que somos os melhores? Não!
A Arte jamais foi uma religião massificada, homogênea, de grandes quantidades, mas parece que muitas pessoas confundem o querer respeito com o querer números. Desejo com certeza que a Arte seja respeitada, que cada um de nós seja respeitado. Mas eu não desejo que a Bruxaria seja algo grande, uma religião institucionalizada, uma religião de massa. E por quê? Por que a Bruxaria guarda relação com a noção de família, de laços que se estabelecem e que são inquebrantáveis. Quando alguém entra em meu coven, essa pessoa entra para a minha família de verdade. Não me interessam números, não me interessam quantos iniciados eu terei na vida. Me interessa ter feito um bom trabalho dentro do que eu aprendi. Me interessa que aqueles que comigo celebram, que comigo caminham, sejam de verdade da minha linhagem ancestral não necessariamente de sangue, mas meus irmãos, meus filhos, meus companheiros. Que seja um reconhecimento para juntos caminharmos novamente, no mesmo espaço e local que outras vezes... Ou em novos lugares, por que não? Esse tipo de coisa não se alcança com muitas pessoas, pois há relações que já se estabeleceram muito tempo antes. Não significa que eu ame apenas quem é do meu grupo. Mas precisamos aprender a discernir que existem pessoas que são do nosso caminho, outras estão em nosso caminho. Amamos cada qual de um jeito, mas um amigo querido e que chamamos de irmão às vezes não faz parte de nosso coven. Não há problemas nisso. Há problemas quando confundimos isso. Palavra de quem já vivenciou essa confusão!
Mas como estamos aprendendo sempre, essa confusão não deve ser motivo para nos fecharmos. Pode ser que em algum lugar pelo mundo a gente se encontre, alma antiga que comigo trilhou muitos caminhos, pode ser que consigamos nos reencontrar, nos reconhecer e nos amarmos novamente. Só depende de nós. E assim é com todo mundo.
Bem, tem outros valores embutidos no filme e que poderíamos ficar horas falando, mas o texto já ficou grande demais. Sugiro que você pegue os seus queridos e faça uma sessão pipoca no feriadão que vem chegando. Troquem ideias, reflitam, conversem. E convido você a postar aqui as impressões de seu povo. Será muito legal para mim poder ler vocês. Sempre é.
Se você é solitário, digo que te entendo muito bem, pois fui solitária quase que minha vida inteira. Reúna amigos queridos ou assista na companhia dos gatos e cães que são nossos grandes companheiros. E depois venha aqui me contar como foi. Tenho certeza que será enriquecedor.
E vamos todos pensar nos valores da Arte, vamos preservá-los, vamos honrá-los, dia a dia em nossas vidas.

Um beijo,
Lua Serena
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