3 de julho de 2003

A MULHER QUE ARRASTA RUAS

O dia amanheceu chuvoso para ela. Espreguiçou-se como um gato na cama... o sono era terrível! Ela acordou de sonhos agitados, marés em movimentos rápidos, sapos e ratos em casa ... No sonho, uma mulher arrastava ruas inteiras, rios, carros e pessoas com uma corda nas mãos. Eram movimentos fortes, movimentos de uma guerreira, de alguém que sabe muito o que faz. A mulher possuía uma beleza bravia, a beleza das mulheres de guerra, mulheres da mata, mulheres das pedras. Tinha marcado na face aquele tom de severidade, olhar negro como o abismo que nos cerca. A menina despertou desse sonho com aquela sensação estranha de não saber onde está. Por alguns segundos ela perdeu totalmente a noção de onde estava, quem era ou como era. Somente a imagem daquela mulher linda e assustadora revolvendo terras permanecia clara em sua mente. Quem era ? Aos poucos ela foi voltando da sensação de não saber e muito cansada, levantou-se. Olhou-se no espelho e percebeu que algo estava mudando... algo estava mudando, mudando de maneira forte, assim como a terra e água que a mulher do sonho arrastava de lugar. E foi assim, violentamente, que ela percebeu que havia crescido... que as mudanças surgem, que as dores também são belas... mesmo quando não sabemos classificá-las, mesmo quando não sabemos o porque da dor, ou... onde ela se encaixa no "tudo acaba sendo para o bem"... Foi assim, como os carros que a mulher do sonho arrastava, que ela percebeu que ou ela segura as rédeas de sua vida com a firmeza de uma guerreira... ou a vida a arrasta... seja por terra, seja por água... seja por fogo, seja por ar... De maneira violenta e brusca, ela percebeu que suas falhas também arrastam casas e pessoas... mas que só podem matar a ela mesma. Foi com medo de toda aquela violência, que ela percebeu como também podem ser destrutivos os atos transformação, de falsa compaixão, de adoração... de solidão. Foi mirando aquele velho que ela percebeu que são fortes as cordas que a aprisionam, porém, mais forte ainda é a mulher que arrasta a terra, a mulher que leva a corda. E foi assim, sorrindo que ela percebeu sua aliança, seu ela. Foi sentido no peito aquele sentimento forte, como as águas e as ruas que a mulher puxava em sua corda, que ela percebeu que era ela... ou ela. Naquela manha de chuvas finas, que ela despertou. Foi naquela manhã fria, mirando o espelho, que ela reconheceu a mulher das águas, a mulher da corda, a mulher do sonho, a mulher da terra... a mulher guerreira... a Deusa.
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