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Giremos em torno do caldeirão,
para lá jogarmos intestinos envenenados.
Sapo, que durante trinta e um dias
e trinta e uma noites
ficaste dormindo embaixo de pedra fria,
teu veneno vertendo, ferve,
em primeiro lugar na panela encantada.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Filé de serpente dos pântanos,
no caldeirão ferve e cozinha.
Olhos de camaleão e dedo de rã,
pêlo de morcego e língua de cão,
forquilha de víbora e ferrão de lacrau,
perna de lagarto e asa de corujinha,
para fazer um encantamento de poderosa força,
fervei e borbulhai, como filtro infernal.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Escamas de dragão, dente de lobo,
múmias de feiticeiras, mandíbulas e estômago
de voraz tubarão,
raiz de cicuta arrancada nas trevas,
fígado de judeu blasfemo, fel de bode
e ramos de teixo cortados em noite de eclipse da lua,
nariz de turco e lábios de tártaro,
dedo de criança estrangulada ao nascer
e lançada pela mãe num fosso,
fazei que a massa fique espessa e viscosa.
Acrescentemos, em nosso caldeirão,
entranhas de tigre como ingredientes.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Vamos esfriá-lo com sangue de babuíno
para que o feitiço seja firme e forte.


in Macbeth, Shakespeare (1606)



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Já viraram porcos

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Segunda-feira, Dezembro 15

ARCANO XVI - A TORRE

Esse arcano talvez seja o que mais variedade de denominações possua. É mais conhecido como A Torre, porém também, pode ser encontrado como A Casa de Deus, A Destruição, O Raio, A Casa do Fogo, A Fragilidade, A Guerra.

Seu número é 16 e, segundo alguns autores, 4x4 significa o extremo da matéria, a matéria que atinge tamanha concentração e acaba por se desintegrar.

Na sua representação gráfica uma torre é fulminada por um raio – ou pelo fogo, em outras representações. É possível ver duas pessoas caindo no chão.

A Torre é o arcano da destruição, da mutabilidade, da transformação dolorosa. O raio ou a labareda que vem do céu representa a força que está além da nossa, a força dos Deuses, a força da qual não podemos escapar ou a qual não podemos enganar. A Torre é o símbolo da perda total. Ao fim do processo que A Torre encerra, teremos de construir novamente, tijolo a tijolo nosso lar, nossa vida, nosso amor, nosso trabalho, nossas amizades.

A destruição que a Torre traz é de tudo aquilo que construímos e que acabou nos aprisionando, ainda que neguemos isso, ainda que não notemos.

Esse arcano simboliza a destruição das formas, dos conceitos, de tudo aquilo que foi por nós construído, tijolo a tijolo, com dedicação e amor. Pode parecer um arcano nefasto numa primeira análise, pois tira de nossas mãos o que amamos, nos derruba dos postos que alcançamos com tanto empenho, destrói relações que construímos e mantivemos de forma profunda. O raio que atinge a Torre nos tira o chão, ou melhor, nos lança ao chão sem aviso. É doloroso, é por vezes traumático, mas é preciso que compreendamos que o raio destrói padrões que devem ser mudados. Muitas vezes construímos uma Torre linda, que nos protege das dores do mundo, é nosso lar, nosso refúgio. Sentir esse refúgio ser destruído por um raio é doloroso demais, deixa marcas, nos faz chorar, nos faz sangrar.

No entanto, a destruição da Torre é necessária.

Quando transformamos nossa Torre numa prisão, ela precisa ser destruída. Pode ser que nem notemos que transformamos nossa Torre numa prisão, pode ser que continuemos dizendo para nós mesmos que aquele é nosso lar, aquela é nossa vida, aquela Torre é nosso trabalho, é nosso amor, aquela Torre é nós mesmos...

A Torre destrói a vida organizada, a rotina, aniquila prisões externas (modo de vida, pessoas, trabalho) e internas (identidade, o eu). É o implacável fim doloroso, a destruição do véu de Maya (ilusão), a explosiva desintegração.

Se conseguirmos passar pela Torre e deixar aniquilar tudo aquilo que é necessário, passaremos para um estágio bem mais sereno. Lembre-se que as pessoas, na representação gráfica da carta, caem no chão, na Terra, na Mãe Terra... São sementes lançadas.

O raio que destrói a Torre nos abala, abala todas as nossas estruturas, nossa fé, nosso eu. Simboliza um poder acima do nosso, note que o raio, ou fogo, vem do céu, a morada dos Deuses.

É um arcano de vivência complicada e delicada, pede muita clareza e compreensão para passar pela situação que A Torre implica, para que não nos percamos durante a lição desse arcano.

PALAVRAS-CHAVE: destruição, evolução, dinamismo, mudança, transformação.

SITUAÇÃO: mudança inevitável e acima de nossa vontade. Destruição material ou não de uma situação que existia há bastante tempo.

PERSONALIDADE: pessoa transformadora, que traz mudanças ou que traz perdas.

ASPECTOS POSITIVOS: mudança, liberação, liberdade, tomada de consciência, destruição ou rompimento com padrões limitadores.

ASPECTOS NEGATIVOS: crise, destruição, perdas, quebras, ruína, desestabilização por erros próprios, decepção, fim doloroso de algo bom.



A TORRE E A SENDA INICIÁTICA


“A Deusa destrói, mas destrói apenas para construir”... Possivelmente vocês já ouviram ou leram tal assertiva. Somente compreendemos essas palavras quando somos atingidos pelo raio e a nossa Torre se desfaz.

Na senda iniciática, estabeleci a transição entre o segundo grau e o terceiro de iniciação como sendo de domínio da Torre, pois é nesse momento do nosso trilhar mágico que tudo se desfaz, que somos forçados a deixar para trás certos aspectos nossos, os Deuses destroem nossas proteções, nossas certezas. É um momento de perdas acentuadas, de destruição de certos valores que dávamos por certo, somos impelidos e forçados a questionar tudo e todos. É aquele momento em que nos perguntamos “O que foi que eu fiz? Onde foi que eu errei? Onde estão os Deuses?”.

Devo deixar claro, novamente, que passamos por momentos de perdas e destruição em outros momentos de nossas vidas, apenas estabeleci esse arcano no momento de transição entre o segundo grau e o terceiro grau por questão de observação, sinto que é nesse período que esse arcano mais se apresenta. O que não impede de vivenciarmos o mesmo em outras fases da senda, o que certamente acontece.
Lembrem-se a senda iniciática não é algo linear ou “certinho” que podemos explicar de forma cartesiana e matemática. Embora eu busque aqui uma relação e um certo padrão, esse artifício serve tão somente para direcionar os estudos tanto de tarô quanto da senda mágica, um modo de auxiliar os que trilham o caminho dos Antigos.

Retornemos à Torre.
Esse arcano surge no momento em que já estamos estruturados há um bom tempo, adquirimos um saber aparente completo, como se a nossa jornada iniciática estivesse chegando ao fim. Relembramos nossos primeiros passos na Arte, ou na vida. Quantos tombos, quantas vezes vacilamos, recuamos, desistimos, seguimos, quantos obstáculos passamos. Olhamos para o ontem e nos sentimos velhos, cheios de sabedoria, estamos quase prontos para conhecer a face anciã da Deusa e receber Dela o pouco que nos resta para sermos nós mesmos Anciãos em nossa Arte.

Estamos preenchidos de muito saber, conhecimento e confiança. Ensinamos o outro, construímos laços com outras pessoas por meio da Arte, orientando, dedicando, iniciando o outro. Somos tidos como exemplos e é assim que nos sentimos também. Afinal, tijolo por tijolo construímos nosso conhecimento, nosso saber, nossa imagem. Somos sacerdotes e sacerdotisas agindo segundo as crenças da nossa religião e tudo vai muito bem, só falta mais um pouco para chegar ao fim da jornada e sermos um iniciado de terceiro grau, um Ancião, um sábio, um mestre completo.

E então, sem aviso, um raio, ou o fogo, vem e destrói tudo o que construímos. Destrói nossas certezas, nossa confiança, nossa imagem, nossa crença, nossa filosofia. Assistimos sem poder nada fazer para impedir a destruição. Choramos.

Toda a construção que, tijolo a tijolo, erguemos é dinamitada, é consumida pelo fogo. Nós sobrevivemos, mas caímos.

Esse é o cenário desse arcano importantíssimo.

A queda, a destruição da Torre nos mostra a dor da perda. No momento em que o fogo destrói nossa Torre, não conseguimos compreender o que acontece, vacilamos, nos revoltamos e choramos.

No entanto, após passada a experiência, percebemos que a destruição nos libertou da Torre que ilusoriamente construímos para nos proteger, mas que nos aprisionava, nos impedia de crescer.
Não significa que a dor diminua, nunca é fácil ver qualquer coisa que tenhamos construído acabar, mas podemos compreender o quão importante foi a destruição.

Ao compreender e passar bem pela Torre, estamos prontos para certas revelações que não compreenderíamos antes desse processo.

Durante todo o nosso trilhar mágico, buscamos por verdades, por desvendar mistérios, por querer saber. A Torre é a necessária quebra para que possamos atingir certas verdades, tocar um ínfimo pedaço de alguns mistérios. A Torre nos mostrará um pouco de algumas verdades.

A Arte é um caminho de perguntas, bem mais que de respostas. No entanto, caso queira trilhar verdadeiramente esse caminho, os Deuses lhes darão algumas respostas. Nem todas são agradáveis e quase todas trazem conseqüências. Portanto, se você não quer ouvir CERTAS VERDADES, não pergunte, ou seja, não trilhe o caminho.

A Torre destrói talvez aquilo que faltava para que pudéssemos passar para o próximo estágio, na Bruxaria, o terceiro grau. E para tanto, precisamos ver o fogo consumir e destruir tudo o que construímos e que nos limitava, precisamos ser lançados da Torre ao chão, à Mãe Terra.

Como sementes, germinando após a destruição das formas que a Torre traz.


QUESTIONAMENTOS IMPORTANTES ACERCA DO ARCANO 16

Eu já passei por algum processo que lembre A Torre? Como foi? O que aprendi?
Tenho em minha vida alguma Torre, que eu pensei ser um refúgio, uma proteção e acabou por se revelar uma prisão?

Em relacionamentos eu já estive presa numa torre?

Costumo deixar morrer aquilo que precisa morrer em minha vida, mesmo que esse processo seja doloroso e brusco?

Quantas vezes eu caí na vida e o que aprendi com tudo isso?

Eu me deixo aprisionar facilmente?

Eu consigo distinguir proteção, cuidado e segurança de prisões?
Figura: http://www.hezicostarot.com/

publicada por Lua Serena às 5:26 PM 2 Comentários

Sexta-feira, Dezembro 5

As Três Faces de Afrodite


Afrodite talvez seja a Deusa grega mais conhecida pelas massas. Mas será que de fato a conhecemos?

Tentei reunir aqui um pouco do trabalho de pesquisa que fiz em busca das origens do culto e facetas de Afrodite, mas a medida em que minha pesquisa avançada, eu percebia que nenhuma pesquisa, por completa que seja, conseguiria tocar a verdade sobre a conhecida Deusa do Amor.

Há quem considere Afrodite uma variação da Deusa sumeriana do amor e da guerra, Inanna, e isso explicaria o nascimento de Afrodite ter sido no mar, pois somente por essa via o culto à Deusa do amor chegaria do oriente ao ocidente. Talvez seja por esse motivo que Afrodite é também considerada protetora dos viajantes.

De fato, estudando ambas, pude notar muitos pontos em comum. No entanto, a idéia central desse trabalho não é traçar uma comparação entre as duas Deusas, mas compartilhar minhas pesquisas focadas em Afrodite.

Começando pelo seu nascimento, encontrei três versões diferentes.

A primeira versão é segundo Hesíodo – poeta grego da idade arcaica, que escreveu “A gênese dos deuses” e “Os trabalhos e os dias” – para quem Afrodite teria nascido do falo de Urano, extirpado por seu filho Cronos.

Cronos, o filho mais novo de Gaia ou Geia e Urano (Terra e Céu), cortou os genitais do pai porque ele aprisionara seus irmãos nos confins da Terra, no Tártaro.

O falo de Urano foi jogado no mar e das espumas desse nasceu Afrodite. Essa versão explica a origem do nome de Afrodite, “nascida da espuma”.

Logo após seu nascimento, a Deusa nadou até chegar na ilha de Citera. Por isso também é conhecida pelo nome de Citeréia. Segundo a lenda, por onde Afrodite passava, a relva se renovava, as flores nasciam, ela trazia o amor maior, o amor que tudo fertiliza, que embeleza.

Vale, portanto, a associação da Deusa do amor com a primavera, pois está intimamente ligada à vida que se renova, às flores, aos nascimentos. Para corroborar essa associação, encontramos uma outra denominação para a Deusa, Antheia, a Deusa das Flores.

Depois de Citera, Afrodite foi para Chipre, onde foi recebida pelas Horas, guardiãs da porta do céu (o Olimpo) e filhas de Têmis, Deusa da Justiça. Nessa ocasião, Afrodite foi vestida por elas e, em seguida, levada à presença dos Deuses. Encantou a todos, claro!

É dessa versão do nascimento de Afrodite que nasce a chamada Afrodite Urânia, doadora do amor universal, da qual falaremos mais além.

A segunda versão de seu nascimento é encontrada, entre outras fontes, em Homero, poeta grego que viveu por volta de 850 a.C em Jônia, antigo distrito grego onde hoje situa-se a Turquia.

Homero escreveu Ilíada e Odisséia, porém, há sérias controvérsias históricas em razão da diferença de estilo entre as duas obras. A controvérsia é tanta que há quem ponha em dúvida, inclusive, a existência de Homero. Dessa discussão nasceu a expressão “questão homérica” a qual se diz quando estamos diante de um impasse.

Pois bem, segundo essa segunda versão do nascimento de Afrodite, descrita também por Homero, a Deusa teria nascido de Zeus e Dione. Porém, me parece que nessa versão encontramos uma forma de restringir a amplitude e força da Deusa.

Entre as discrepâncias encontradas nessa versão, a que mais me chamou a atenção foi o fato de Afrodite ser também conhecida pelo nome de Dione, que é a forma feminina de Zeus, conhecida como Deusa das águas, das fontes, do carvalho e dos oráculos, sendo essa última característica de Afrodite, pouco mencionada.

A terceira versão do nascimento de Afrodite é pouco conhecida. O que sabemos é que Afrodite teria nascido de um caramujo e desembarcado de uma concha na ilha de Citera.

Em Cnido – costa da Ásia maior – o caramujo é considerado uma criatura sagrada da Deusa.

Outra ligação de Afrodite com o caramujo está na lenda de que Afrodite, antes do Olimpo, viveu no mar, na companhia de um caramujo de extrema beleza chamado Nérites, filho de Nereu, uma das facetas da triplicidade da divindade do mar conhecida como “O Velho do Mar”.
Pouco se sabe dessa terceira versão do nascimento da Deusa, mas é inegável a relação de Afrodite com o caramujo.

Essas três versões da origem de Afrodite nos falam de seu nascimento na água. Afrodite nasce na água, ou da água do mar, o por nós conhecido útero primordial. Nós, seres humanos, também nascemos na água. Talvez nosso passado intra-uterino faça com que tenhamos tanto amor por essa Deusa maravilhosa, e talvez seja também esse nosso passado intra-uterino que nos dê a sensação de retorno às nossas origens quando mergulhamos no mar.

Outro ponto interessante sobre a força de Afrodite é que Ela é o amor que tudo gera.

Nós também somos, ou temos, esse amor que nasceu nas águas. A água é símbolo do nosso inconsciente, do nosso lado feminino, da fertilidade, da emoção.

O oceano primordial de onde crêem alguns termos nos originado me lembra muito o nascimento de Afrodite e sua relação com a humanidade.

Quem sabe Afrodite não seja a expressão humana dessa vida, pois tudo que ela toca se torna fértil, pulsante e vivo. Quem sabe Afrodite não seja essa própria força geradora da vida.
Afrodite e a humanidade, que realção impressionante. Mesmo entre os que dizem não cultuar a Deusa, nutre por Ela uma estranha ligação.

Como Deusa do Amor Maior, da beleza e da vida Afrodite também pode ser cruel, destruidora, como veremos. Nesse ponto reside a estreita conexão de Afrodite com a humanidade. Temos em nós esses dois pólos, essas duas versões de nós mesmos.

A bem da verdade, não seria correto dizer “dois pólos de Afrodite”. Poucos conhecem a versão tríplice da Deusa do Amor. Porém, noto que, cada vez que pesquiso sobre aspectos de determinada divindade, sempre encontro essa característica tríplice que, pasmem, também não pára no número três. Mas isso é assunto para outro texto.

Hoje o que conhecemos de Afrodite é reduzido ao quesito amor. Porém, Afrodite se mostra muito além do que se é possível escrever sobre a Deusa.

Afrodite não é somente a Deusa do amor e da beleza. A primeira face de Afrodite, em sua triplicidade, é Afrodite Urânia, distribuidora do amor universal, a doce, a bela, aquela que une os pares com amor, que dá cor e beleza ao mundo. É a Deusa do céu, das estrelas, do amor celestial. Sempre que penso nesse aspecto de Afrodite, me lembro da já mencionada Inanna, a Deusa dos Céus, como provedora, amorosa.
A segunda face é Afrodite Pandemos, que está intimamente ligada a questões carnais, sexuais, físicas, materiais. O amor sensual é domínio dessa faceta da Deusa, é Ela quem nos oferece os prazeres do corpo, que desperta o desejo, que nos faz querer a beleza para conquistar.

O terceiro aspecto é o menos conhecido, Afrodite Apostrófia, que significa “aquela que se afasta”. Esse é o aspecto destruidor da Deusa, o aspecto mais difícil e menos explorado.
É como se quisessem deixar à mostra somente o lado que convém. Vemos muito disso ao estudar essa Deusa.

Afrodite Apostrófia é que deturpa, a que escraviza e a que traz a mazelas, as desgraças. Penso muito nas modelos anoréxicas e bulímicas quando ouço o nome Afrodite Apostrófia.
Como dissemos, em verdade, não se trata de apenas três faces. O culto de Afrodite e suas faces vão variando conforme a época, o local e a ideologia do povo.

Temos, por exemplo, Afrodite Eleêmon, cultuada em Chipre como “A Misericordiosa”, cuja imagem se assemelha muito com a da Virgem Maria, porém, sem o aspecto da castidade.
Afrodite Pasifessa, “A que brilha longe”, conhecida como a Deusa lunar que rege os mistérios do inconsciente.

Afrodite Zeríntia, que muito se assemelha a Hécate. Afrodite Zeríntia é uma face da Deusa que está além do Olimpo, cujos domínios são além da Terra e do céu, assim como Hécate.
Para os atenienses, Afrodite Zeríntia era a mais velha das moiras.

Outro ponto em comum com Hécate era o sacrifício de cachorros, feitos em honra à Afrodite na costa trácia, posto que esse animal era consagrado à Afrodite Zeríntia.

Afrodite Genetílis, outra faceta da Deusa, também recebia sacrifícios. Ficou conhecida como Vênus Genetrix, pelos latinos, a Deusa dos partos.

Temos também conhecimento de um outro aspecto da Deusa, Afrodite Hetaira, que era venerada pelas cortesãs.

Diferentes das prostitutas pobres e não cidadãs, as hetairas eram treinadas desde cedo nas artes do sexo.

Aquele que comprava uma hetaira pagava uma soma muito alta. Tratava-se de um investimento. Muitos pagavam fortunas pelos favores sexuais das hetairas, e investiam também nos dotes artísticos delas.

É fato histórico que algumas hetairas acabaram comprando sua liberdade, tornando-se grandes e conhecidas mulheres.

Em Esparta, Afrodite era adorada como Enóplio, portando armas, e Afrodite Morfo, a acorrentada. Era chamada de “a de corpo bem feito” ou “a de várias formas”.

Afrodite Ambológera era adorada também em Esparta como aquela que adia a velhice, trazendo vigor físico.

Temos também a Afrodite Negra, ou Melena/ Melênis, dominadora dos mistérios da morte e destruição, aspecto relacionado com as Erínias.

Aliás, os aspectos negros de Afrodite são os que menos conhecemos. Podemos citar Afrodite Andrófono, a matadora de homens; Afrodite Anósia, a que peca, e Afrodite Tamborico, a cavadora de túmulos.

Existe também a ligação de Afrodite com Perséfone. Afrodite Persefessa era invocada como Rainha do submundo.

Interessante notar que Eurínome, a Deusa primordial dos pelasgos, também tinha relação com o mar, era a Deusa dos prazeres, governou antes do patriarcado olimpiano e foi rebaixada, deixada de lado.

Como podemos ver, Afrodite é muito mais complexa do que lemos por aí. Não daria para explanar toda a complexidade da Deusa nesse trabalho.

Afrodite não se resume ao amor físico, nem ao amor universal, nem ao sexo, nem à beleza. Ela rege tudo isso e muito mais. Afrodite é o amor entre seres e intra seres, é o amor que cria, mas é também o amor que ceifa.

Afrodite está presente no sexo, no prazer, Ela é o desejo, a vontade entre dois seres. É Ela quem faz com que duas pessoas se desejem e desse desejo mútuo, dessa explosão de energia entre dois corpos, duas mentes e dois espíritos possa ser criado um outro ser, pois Afrodite é doadora da vida também.
Afrodite é a própria beleza da Terra, não diz respeito somente a corpos jovens e esbeltos. Para Afrodite a beleza plástica não vale nada. Afrodite quer a beleza da mente, do corpo e do espírito.
De nada adiantará explorarmos as novidades cosméticas se não explorarmos nossa beleza real, aquela que é dada por Afrodite a todos, sem exceção.

Afrodite abençoou a todos com a beleza, é uma sabedoria que poucos compreendem.

Creio que Afrodite perguntaria às pessoas:

De que adianta a sua beleza, sua perfeição se você vive destrói o seu planeta?


De que adianta a forma física perfeita se é vazio por dentro?

Como pode você desejar a beleza constantemente na sua vida e degradar a sua casa?

Afrodite é doadora da beleza, do viço, porém, Afrodite também deseja que cada um de nós leve a beleza para a vida daqueles que nos cercam.

O que acontece com pessoas bonitas, jovens, que exercem sua sexualidade desmedida?

O que acontece com pessoas que em nome do amor aprisionam outro ser?

O que acontecem com pessoas que buscam a beleza vazia?

Solidão.

Solidão no sentido mais amplo.

Afrodite vai embora e leva consigo a real beleza, o sexo pleno, o amor verdadeiro.

É nessa hora que podemos conhecer a face da qual poucos falam, Afrodite Apostrófia, aquela que se afasta.
Figura: www.dailypainters.com

publicada por Lua Serena às 7:45 PM 5 Comentários

Terça-feira, Dezembro 2

O Enforcado e A Senda Iniciática

O Enforcado simboliza o sacrifício voluntário, a entrega a um momento de estagnação.

Representa o momento em que, suspensos pelo pé, somos levados a sacrificar velhos padrões em busca de uma nova direção certa e definida. Diferentemente de outras lâminas que também nos leva a quebra de padrões, o Enforcado, ou Pendurado, ou Afogado, nos apresenta aquele momento em que quebramos padrões antigos de uma forma lenta, profunda, por vezes, dolorosa, mas de forma voluntária.
Nos entregamos a um propósito, um ideal, uma situação. Nos entregamos de corpo e alma, nos sacrificamos, nos submetemos voluntariamente a alguma situação, provação, desígnio que, ao final dessa jornada, nos transformará.

Simboliza a entrega espiritual que pode nos machucar, mas que é benéfica por que temos a certeza da importância do momento pelo qual estamos passando, temos certeza que esse momento é o agente catalisador para a nossa transformação. É por essa razão que esse arcano nos fala muito mais da CERTEZA que da FÉ. Ainda que o momento não nos dê todo o desenrolar da história, todas as páginas que se seguirão em nossa história, o Enforcado simboliza a certeza de ter que se sacrificar em prol de algo e essa certeza faz com que nos entreguemos plenamente, ainda que possa ser doloroso. E por vezes é.

A aceitação espiritual do Caminho, o conhecer a escuridão para transcender. É disso que trata o arcano 12.

É o momento da parada. Nessa parada juntamos todo o conhecimento que adquirimos até esse ponto do Caminho para realizar um propósito. Nesse ponto da nossa caminhada, já conhecemos alguns mistérios e então os reunimos, sacrificamos aquilo que precisa ser sacrificado, para então seguir a jornada rumo à transformação.

De cabeça para baixo, o Enforcado deixa cair de seus bolsos tudo aquilo que não lhe serve e que precisa ser retirado. E seu semblante espelha a voluntariedade, a entrega. O Enforcado, embora nos apresente uma situação por vezes dolorosa, tem o semblante sereno. Talvez o êxtase da entrega e a consciência da importância de renunciar certas coisas para a consecução de algo maior amenize a dor do momento.

No Caminho dos Antigos, o Enforcado simboliza uma das situações internas, que, por obviedade, surtirá efeito no mundo externo, que passamos, pela primeira vez, quando trilhamos nosso caminho na iniciação de segundo grau. Portanto, ocorre pela primeira vez quando estamos no processo de iniciação de segundo grau.

Vale dizer que não significa que, uma vez vivenciado O Enforcado, ou outro arcano, nunca mais o vivenciaremos novamente. Ou seja, não é por que já passamos por determinadas situações que nunca mais vivenciaremos a mesma situação.

As coisas não funcionam dessa forma.

Vivenciamos O Enforcado pela primeira vez, em regra, quando já temos alguns conhecimentos, já estamos trilhando o Caminho e então é chegado o momento de sacrificar-se para passar para uma outra fase. Vale lembrar que a Deusa e o Deus não nos castigam, não nos impõe dores, martírios, calvário... O Enforcado fala de entrega voluntária, somos NÓS quem escolhemos trilhar o Caminho de forma mais profunda e isso implica em conhecer certos mistérios (que são nossos e também da Deusa e do Deus) que não são apenas repleto de flores perfumadas.

Todo o processo iniciático ensejará certas renúncias, certos encontros com faces nossas e dos Deuses que seria mais cômodo não encontrar, mas que, ao final, veremos que foi tudo tortuosamente maravilhoso e enriquecedor. Palavras não são suficientes para expressar... é preciso vivenciar.

O Enforcado pode representar, inclusive, um sacrifício dentro da própria Arte. Pode significar um aparente afastamento do Caminho, um momento em que recolhemos nosso altar e guardamos tudo, entramos num casulo apertado e escuro, onde não podemos respirar direito. Mas, depois de finalizado esse processo de aparente afastamento para, por exemplo, nos focarmos em outra área de nossas vidas, algo acontece... Algo muito profundo acontece. E então morremos novamente, pois o próximo arcano é o 13, A Morte. E, como sabemos, morremos e renascemos inúmeras vezes.

No Tarô Mitológico, O Enforcado é representado com o mito de Prometeu, aquele que roubou o fogo sagrado dos Deuses e o entregou à Humanidade. Em razão de tal ato, foi castigado por Zeus a ficar dependurado enquanto uma águia bicava-lhe o bico dia e noite. O fígado se refazia e a ave voltava a bicar. Apesar do momento torturante, Prometeu aparece sereno, pois fez o que deveria ser feito. Sem arrependimento e sabendo que aquele momento passaria.

“O carvalho não é apenas testado, mas enrijecido pelas tempestades.”
(Lettie Cowman)

Outro mito associado ao Enforcado é o mito de Odin, que embora seja poderoso e supremo, se sacrificou pendurando-se na árvore sagrada Igdrasil por doze dias a fim de rasgar mais um véu dos mistérios, resultando na descoberta das Runas.

Esse mito nos faz compreender que é comum, em determinado momento e por determos certos conhecimentos, pensarmos que já sabemos de tudo o que nos é necessário. Nesse momento parece que já aprendemos tanto que até mesmo o Caminho se torna monótono. Então podemos incorrer no risco da estagnação, do comodismo, da preguiça, do não fluir, do abandono, do bloqueio... aspectos negativos do Enforcado.

O Enforcado nos fala muito de nossas limitações e de não sermos arrogantes em afirmar que já sabemos tudo. Também não podemos alegar ingenuidade e descuido por não saber, já que sabemos, sim, algumas coisas.

É a hora do sacrifício e como ele vai se dar difere de buscador para buscador.
Figura: não sei de quem é a arte, se alguém souber, me avise.

publicada por Lua Serena às 7:24 PM 0 Comentários