ARCANO XIV - A TEMPERANÇA
Esse arcano, assim como outros, padece de uma, por assim dizer, distorção ou limitação em sua simbologia.
Se não o primeiro, talvez o mais conhecido estudioso do tarô a tratar desse assunto foi Aleister Crowley, que denomina o arcano XIV como A Arte, o que, em nosso sentir, é deveras apropriado, como veremos mais adiante.
O sentido mais conhecido desse arcano, sem dúvida, é o equilíbrio e a transmutação. A própria imagem nos transmite facilmente essas duas idéias centrais. A palavra “Temperança” deriva do latim temperantia e significa moderado. Na maioria dos baralhos está representada graficamente com um anjo que manipula dois recipientes com líquido que joga de um para o outro, lembrando bastante misturas alquímicas. Sim, esse arcano simboliza o equilíbrio e a transmutação de algo.
Mas não é só.
A Temperança trata da mistura de todas as circunstâncias, momentos e fatos que fazem nascer o equilíbrio. Fala de equilibrar as diferentes condições e situações da vida, da capacidade que temos em nos harmonizar ainda que estejamos diante de um problema.
Fala da mistura de elementos opostos, tema que podemos encontrar em outras lâminas. Porém, nesse arcano essa mistura é muito mais profunda. Não se trata apenas da união de duas polaridades, mas de uma fusão profunda do masculino e do feminino. Assim como o In_Yang dos orientais, na Temperança temos a compreensão de que a fusão dos opostos gera equilíbrio e transmuda a nossa vida.
Porém para a compreensão exata desse equilíbrio e transmutação se faz necessário um mergulho dentro de nós mesmos, pois A Temperança é exatamente esse mergulho retratado numa lâmina de tarô.
Dentro de nós temos a porção divina daquilo que nos criou. Embora não sejamos essa Divindade, paradoxalmente, nós somos. E a compreensão da nossa porção divina talvez seja a tarefa mais difícil em nossa vida diária, pois ao compreender o meu eu e o meu eu divino, também compreendo que o outro é de igual maneira divino. E então teremos também de nos fundir com o outro para atingir o equilíbrio.
A Temperança é a fusão alquímica do fogo e da água. Em outras palavras é a fusão de tudo aquilo que é oposto, e a vivência dessa fusão é que nos leva ao equilíbrio. Aliás, esse arcano nos fala que é preciso experienciar essa fusão para atingir a harmonia. Somente através da vivência dessa fusão é que, de fato, seremos equilibrados. Para que só a partir desse equilíbrio o novo possa surgir.
Não é tarefa fácil. A imagem serena da Temperança pode enganar os menos avisados, pois embora ela trate do equilíbrio e da harmonia, sua profundidade nos impõe assumir posturas difíceis. É um trunfo que nos oferece o bem, mas que nos alerta que para a consecução desse bem, é preciso vivenciar também o outro lado – a fusão das polaridades – talvez a tarefa mais difícil para muitos de nós, senão para todos nós.
Crowley chamou esse arcano de A Arte porque ele é em si a alquimia perfeita, a Grande Arte de nos fundirmos com o oposto, com o oposto de fora e com o oposto de dentro... todos dentro de nós. Em nós está a Grande Arte, nós somos os mistérios, dentro de nós residem os opostos, somos água e fogo, além de ar e terra.
A Temperança fala dos sentimentos ambivalentes por que é água e fogo, ambos os elementos relacionados com os sentimentos e com o espiritual, mas ao mesmo tempo opostos entre si.
No tarô mitológico está esse arcano é representado pela Deusa Iris, a Deusa do Arco-íris, a mensageira alada dos Deuses, aquela que realizava os desejos dos Deuses e dos humanos, sejam eles quais forem. Nesse sentido, A Temperança nos alerta para o fazer sempre tudo o que for possível para não perder a harmonia (ou falsa harmonia). Não há, portanto, crescimento, pois não há fluidez real. Por essa razão, A Temperança ode simbolizar a estagnação para não gerar conflito.
O arco-íris é a expressão da fusão da água com o fogo, já que é a água da chuva unida com a luz solar. O Deus africano Oxumaré, cujo símbolo é o arco-íris é metade homem, metade mulher. A bem da verdade, não seria bem isso, seria além... ele é a fusão do masculino e do feminino. Um Deus que, com certeza, caberia muito bem na representação mitológica desse arcano.
Diante de tudo isso, numa jogada, A Temperança pode significar uma união, um relacionamento, uma fusão que aparentemente poderá nos parecer conflitante, embora esse conflito não seja uma regra. Estamos diante do nosso oposto, talvez do nosso par perfeito para aquele momento, pois será através dessa união que atingiremos o equilíbrio interno para que algo novo possa surgir.
Está relacionado com todos os processos de transformação, processos que exigem não a pressa, mas ao contrário, uma lenta fluidez. Portanto, não espere muita rapidez nas questões que estão sob o domínio da Temperança, e lembre-se: o sucesso dependerá do quanto você conseguirá se fundir com os opostos e atingir o equilíbrio.
PALAVRAS-CHAVE: fusão, união, transmutação, alquimia, temperar, flexibilidade.
SITUAÇÃO: lenta, mas fluida, que necessita de cuidado, de adaptabilidade e flexibilidade. Idéias que depois de um período acabam se manifestando no plano físico.
ASPECTOS POSITIVOS: capacidade de unir aspectos, situações ou pessoas opostas, algo novo que pode ser obtido através do equilíbrio, harmonia, equilíbrio, capacidade de coordenar algo, de concentrar-se em algum objetivo, renovação de conceitos que pareciam imutáveis, purificação, exame harmonioso de questões conflitantes, relacionamento perfeito, o par perfeito, auxílio cósmico.
ASPECTOS NEGATIVOS: prostração, preguiça, uma situação demorada quando se tem pressa, carência, medo de dialogar, falta de diálogo, negligência, passividade, instabilidade, viver em função dos outros ou em função apenas de si mesmo, contemplação excessiva, relação dependência, solidão.

A Temperança e a Senda Iniciática
Esse arcano nos remete à fusão de aspectos contraditórios que geram harmonia, como vimos. Mas não apenas isso. A Temperança nos fala de transmutação que ocorre uma vez experienciado esse estado de fusão.
No trilhar mágico nos deparamos com a experiência desse arcano, em geral, quando estamos já no terceiro grau de iniciação, muito embora, como eu já falei para vocês, as experiências com cada arcano possam acontecer, e em geral assim e que é, de uma forma não linear (do Mago ao Mundo).
Contudo, somente depois de uma boa bagagem mágica, depois de termos uma boa parte do caminho é que, de fato, compreendemos o que é essa fusão e o que ela acarreta.
A sensação experimentada com o arcano XIV é da completa fusão do praticante com a Deusa e o Deus. Algumas vertentes colocam a Deusa como preponderante ao Deus e, para muitos, isso se revela mais nitidamente – embora já possamos notar isso com a experiência de outros arcanos – com a experiência da Temperança.
E, como não poderia ser diferente, a experiência não se revela nada fácil. É talvez um dos caminhos mais importantes e mais complexos pelo qual passa o bruxo. Tanto é assim, que palavras não conseguiriam expressar o que de fato ocorre. Mas vamos tentar.
Atingido o terceiro grau de iniciação, o buscador consegue enxergar nos desafios da sua vida, no seu cotidiano e nos seus acertos e erros, a sua crença. Não há mais divisória. Embora possamos vislumbrar essa fusão em outras épocas do nosso trilhar, somente quando encontramos a Temperança isso é de fato absorvido, e isso, em geral, só pode ocorrer no terceiro grau.
E é uma experiência incrível a de ser parte do todo, a de ter o todo dentro de vc em suas múltiplas oposições.
“E você que busca conhecer-me, saiba que sua procura e ânsia serão em vão, a menos que você conheça o mistério: pois se aquilo que busca, não se encontrar dentro de você, nunca o achará fora de si.”
Alguns acreditam que A Temperança é a Deusa das Bruxas, Diana. Não me espantou em nada essa descoberta, posto ser Diana a Deusa andrógina, que contém em si os aspectos do homem e da mulher, e ser Essa Maravilhosa Dama a Deusa das Bruxas, a Deusa que dá a vida e também a morte.
Na maioria das pessoas, seja lá qual for o caminho seguido, a experiência de sentir-se um com a Divindade é desconhecida. Por nós, praticantes da Bruxaria isso é sentido desde os primeiros passos, mas é somente quando experienciamos essa união no terceiro grau que realmente nos transmudamos.
Não que não nos ocorra parte dessa transmutação já no início de nossa jornada, mas aqui, nesse momento algo realmente nos muda.
Ritualisticamente, varia muito de tradição para tradição o rito que marca o terceiro grau de iniciação. Alguns, por ser esse período marcado pela união, fusão dos opostos – água e fogo – utilizam o grande rito, mas isso não é uma regra. A união sexual nesse sentido refletiria a fusão retratada na carta da Temperança.
Independente de como é marcado o rito do terceiro grau, nesse momento o caminhante compreende que a fusão dos opostos (já experimentada nos outros momentos da caminhada, como quando experienciado A Imperatriz, O Carro, e outros que estudaremos mais adiante) se concretizará plenamente e drasticamente na vida dele, em todas as áreas, em todos os aspectos.
“Uma vez no Caminho, não há volta.”
Essa é uma verdade que lemos e ouvimos muito durante a nossa caminhada pelas veredas da Arte, mas que, plenamente, só conseguimos absorver toda a sua verdade quando nos deparamos com A Temperança.
Não que algo nefasto nos ocorra, nada disso. Um amigo conseguiu exprimir muito bem a sensação do não haver mais volta, ele disse que é como depois de sermos alfabetizados se torna impossível parar os olhos nas palavras sem lê-las automaticamente. E eu arremato: depois de estudar e ler muito na vida, a gente vicia em ler, ler tudo o que passar pelos olhos, impossível ser de outra maneira, seja de forma branda ou forte, uma vez no caminho não há mesmo volta.
Você pode trilhar despreocupadamente, podendo voltar sempre que quiser, mas depois de um determinado ponto, não há mais volta.
Tal qual ferro, precisamos mesmo ser temperados para que sejamos fortes, pois aqui atingimos apenas uma parte da etapa do terceiro grau. Ainda há muito a percorrer, muito a aprender.
Beijos e Bênçãos,
Lua Serena
Figuras: The Fairytales Tarot; Igor Makarevich Tarot e Llewellyn Tarot









