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. : Encantamento : .


Giremos em torno do caldeirão,
para lá jogarmos intestinos envenenados.
Sapo, que durante trinta e um dias
e trinta e uma noites
ficaste dormindo embaixo de pedra fria,
teu veneno vertendo, ferve,
em primeiro lugar na panela encantada.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Filé de serpente dos pântanos,
no caldeirão ferve e cozinha.
Olhos de camaleão e dedo de rã,
pêlo de morcego e língua de cão,
forquilha de víbora e ferrão de lacrau,
perna de lagarto e asa de corujinha,
para fazer um encantamento de poderosa força,
fervei e borbulhai, como filtro infernal.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Escamas de dragão, dente de lobo,
múmias de feiticeiras, mandíbulas e estômago
de voraz tubarão,
raiz de cicuta arrancada nas trevas,
fígado de judeu blasfemo, fel de bode
e ramos de teixo cortados em noite de eclipse da lua,
nariz de turco e lábios de tártaro,
dedo de criança estrangulada ao nascer
e lançada pela mãe num fosso,
fazei que a massa fique espessa e viscosa.
Acrescentemos, em nosso caldeirão,
entranhas de tigre como ingredientes.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Vamos esfriá-lo com sangue de babuíno
para que o feitiço seja firme e forte.


in Macbeth, Shakespeare (1606)



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Já viraram porcos

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Terça-feira, Março 14

Draupadi



A história de Draupadi faz parte do Mahabharata, já que ela viveu com os 5 irmãos Pândavas, na época de Krishna.

Certa vez um rei, que não podia ter filhos, fez um longo ritual e pediu aos deuses a graça de ter filhos. No momento em que ele orava, das labaredas do fogo sagrado da pira, materializou-se uma linda jovem, Draupadi! Ela se encaminhou graciosamente para o rei e saudou seu pai, respeitosamente.

Alguns anos mais tarde, quando Draupadi estava na idade de se casar, seu pai, que a amava muito, fez um torneio e convidou muitos reis das cidades e até dos países vizinhos, para que se candidatassem à mão da linda princesa. Muitos deles eram jovens e valntes guerreiros, e todos queriam obtê-la como esposa, pois Draupadi era linda e cativante.

Yudístira, o mais velho dos Pândavas, governava um reino vizinho ao do pai de Draupadi, sendo um governante sábio, usto de amado pelo povo. Convidados para o torneio, os cinco valoosos Kshátrias lá foram, tentar obter a mão da princesa, além de conhecer outros guerreiros e serem conhecidos também.

Là chegando, sempre em companhia do primo, Sri Krishna, eles ficaram sabendo que o concurso era o seguinte: o concorrente tinha que acertar uma flecha num peixe, que estava em cima de uma haste de 100m de altura, apenas mirando um lago, ao lado da haste. Era uma prova bastante subjetiva!

Mas Arjuna, o grande arqueiro Pândava, enfrentou a prova e, virando-se de costas para a haste e para o peixe, acertou-o com a primeira flecha! Grande Arjuna! O público que assistia à pova o aplaudiu de pé, e todos comentavam:
- Aquele é Arjuna, irmão de Yudístira e primo de Sri Krishna! Que perícia!

E assim, Arjuna, que já era casado, casou-se novamente, só que, ao voltarem todos para o palácio com Draupadi, Arjuna, feliz, anunciou a Kunti:
- Mãe, adivinha o que eu trouxe hoje!

E Kunti, atarefada com um bordado, sem levantar os olhos, respondeu:
- O que quer que tenham trazido, dividam igualmente entre si, meus filhos.

Confusos, mas sem poder ir contra a palavra materna, eles cinco se tornaram maridos de Draupadi.

O número não era problema naquela época, pois um homem podia ter quantas mulheres quisesse (já as mulheres... não era comum terem mais de um marido). O importante aqui é a ordem contida na palavra dos mais velhos, carregada de deveres cármicos, dos quais eles não puderam mais se soltar.

E foi ótimo para todos, pois Draupadi era uma mulher valorosa e dedicada, que amava os cinco irmãos igualmente. Ela conviveu com eles e a sogra muito bem, até o dia infeliz em que Yudístira, que tinha uma forte queda pelo jogo de dados, foi convidade pelo seu primo e inimigo, Duriodana, para uma partida.

Ninguém é perfeito e Yudístira, imaginem só, dono de um caráter sem jaça e de um senso de justiça inigualável, aceitou jogar com seus primos, os 100 Káuravas. Durante o jogo, Yudístira só fazia perder, até que, em determinado momento, já sem ter o que apostar, ele apostou... a própria Draupadi! E, é claro, perdeu.

Quanta humilhação! Ao ganhar Draupadi do próprio marido, e para feri-lo ainda mais, Duriodana exigiu que ela tirasse o sari enquanto dançava. O escândalo não tinha limites, nem adiantava resistir! A pobre princesa, acatando os resultados infelizes dos atos mais infelizes ainda do marido, não teve outra alternativa senão se ocultar por trás das lágrimas de vergonha e começar a se despir! De nada adiantou a indignação dos Pândavas, nem dos mais velhos.

Mas... Oh! Maravilha das Maravilhas! Nem Draupadi conseguia se conter do espanto e da gratidão! É que enquanto ela dançava, timidamente, se desenrolando dos seis metros de seda do seu sari... o sari não se acabava nunca!

Sentado ao longe, sorrindo para ela como quem diz "Não se preocupe, eu a apóio, estou do seu lado!" e mexendo as mãos sutilmente, como quem enrola um novelo de lãs, Sri Krishna ia "tecendo" o sari de Draupadi, de forma que ela não conseguia se desenrolar do sari totalmente, pois este se tornara infindável, graças ao encanto de Krishna.

Por fim, rodeada de centenas de metros de seda, Draupadi se ajoelhou na frente de Krishna, agradecendo-Lhe por tê-la poupado de uma humilhação ainda maior.

Polida, mas firmemente, Krishna aproveitou a oportunidade para dar mais uma lição moral aos primos, tanto os Pândavas quanto os Káuravas, dizendo:
- O que vocês acabam de fazer não é correto, nem nunca será. Os vícios não nos acrescentam nada. Se Yudístira é fraco em relação ao jogo, Duriodana também é perverso e se diverte em ferir as pessoas. Ambos terão que pedir perdão a Draupadi, que voltará para sua casa e seus maridos. E todos iremos esquecer esta reunião infeliz.

Diante de tal autoridade, realmente os dois pediram perdão à princesa, mas o incidente não terminou por aí. Torcendo os conceitos de Justiça e direitos/deveres, Duriodana conseguiu exilar os Pândavas e Draupadi na floresta por 13 anos!

Draupadi era uma mulher de forte personalidade, mas doce e sábia. Por isso, apesar dos defeitos que não um, mas cinco maridos tinham, ela tudo relevava e convivia com isso da forma mais sincera e leve que podia, tudo fazendo para tornar a vida de todos muito agradável.

(Lendas Indianas - O Encanto de Um Povo, Vânia de Castro)

publicada por Sarasvati às 11:05 AM 1 Comentários