18 de maio de 2009

ARCANO XV - O DIABO

O Diabo, como é conhecido este arcano, também padece do problema da incompreensão. Tido como um arcano que prenuncia o mal, a traição, o engano, os vícios... é temido por muitos.
Mas assim como muitas outras cartas, O Diabo não simboliza apenas isso e nem é aquilo que a visão deturpada de tanto tempo nos passou. É preciso olhar mais profundamente para ele para compreender toda a sua complexidade.
O Diabo simboliza aquela situação em que estamos diante de nossas sombras, daquele aspecto de nós mesmos que detestamos encarar. Ele aparece quando estamos imersos naquela parte de nós que não mostramos nem para nós mesmos, ou quando é preciso encarar todas as nossas fraquezas, medos, erros e vontades escondidas no mais recôndito do nosso ser. Ele simboliza todas a ilusões que criamos para nos satisfazer e para nos enganar... não, ele não é um ente que as traz, ele mostra a nós que nós mesmos criamos essas ilusões e nos tornamos escravos delas. Situações que não nos fazem lá muito bem, mas que por algum motivo não conseguimos, ainda que provisoriamente, sair delas... viciamos em vibrar naquela energia. É por isso que encontramos na carta do Diabo, na maioria de suas representações, dois seres humanos acorrentados, amarrados, de alguma forma restringidos, enquanto O Diabo as controla.
Na verdade, O Diabo apenas faz o seu trabalho, nós é que não o compreendemos. O Diabo é o condutor do êxtase, do corpo, do sexo, de tudo aquilo que é material. E nós, muitas e muitas vezes, apenas nos deixamos levar por tudo isso. Escravidão. Ele não nos escraviza, ele apenas faz o trabalho dele... Tenham isso em mente e notarão o quanto somos responsáveis por nossas vidas. Não há alguém para culpar, embora sempre busquemos isso. O Diabo nos mostra também essa característica, o de procurar um bode expiatório. Aliás, ele é o próprio símbolo do bode expiatório, pois ele mesmo se tornou isso para a humanidade que, temerosa em assumir seus impulsos, rejeitando a sombra e ignorando a existência do Diabo acaba por tornar-se vítima manipulada. Somente quando encaramos o Diabo dentro de nós é que somos nós mesmos por completo.
O Diabo, então, não é o mal! Somente vivenciando esse aspecto de nós mesmos aprendemos a outra lição desse Senhor: a alegria de estar vivo, de ser matéria, de ser corpo, de fazer sexo, de comer, de ir ao banheiro.
A humanidade negou O Diabo por não compreende-lo, a humanidade o teme por não querer enxergar que, na verdade, ele é um aspecto da própria humanidade.
“Deus fez o homem sua imagem e semelhança.”
Ele é o fruto da árvore proibido, que sempre simbolizou somente o conhecer do bem e do mal. O Diabo nos ensina, e muito, que somente é possível equilíbrio se conhecer o nosso bem e o nosso mal, e o bem e mal de tudo. Isso é completude. Mas só podemos vivenciar o mal... vivenciando aquilo que mais tememos. Não me admira que essa figura tenha sido transformada em algo tão amedrontador.
Ele é o poder oculto que constrói e destrói. Ele é aquele que escancara as nossas portas e janelas, nos mostrando como insistimos e negar nossos próprios erros, nossas próprias ações. Ele não tinha nem de longe como ser suave, fácil, tranqüilo.
Isso é O Diabo!
Aquele que nos força a trazer à tona tudo aquilo que esforçamos em esconder. Ele simboliza o engano e a traição sim, mas muito mais profunda é a traição que fazemos conosco ao negar esse lado sombrio.
Ele é implacável. Não há como fugir. O grande lance é esse: quanto mais se foge, mais escravo você fica.
Numa jogada, analisar as cartas ao redor fará toda a diferença, pois ele poderá simbolizar os enganos, as mentiras, as trapaças... mas também poderá simbolizar a paixão, o sexo, a alegria de estar vivo e pisando a terra. Sinta essa carta com todo o seu corpo quando estiver lendo as cartas. Analise bem... O Diabo engana!

PALAVRAS-CHAVE: desejo, instinto, impulso, potência, possuir, matéria.

PERSONALIDADE: uma pessoa apaixonada, criativa, produtivo ou destruidor, que utiliza dos meios que forem necessários para conseguir o que deseja.

ASPECTOS POSITIVOS: diplomacia, poder, persuasão, influência, desejos, sexo, o corpo, o dinheiro, a alegria, o êxtase, realizações materiais, dominação das massas, sensualidade, criatividade, vontade firme.

ASPECTOS NEGATIVOS:
ilusão, mentira, engano, sucesso efêmero, vícios, magia negativa, paixões descontroladas, disputas, confusão, desejos destrutivos, excessos, precipitação, impaciência.




*RAINER MARIA RILKE (retirado do livro O Tarô da Deusa Tríplice)

22 de abril de 2009

ARCANO XIV - A TEMPERANÇA

A Temperança

Esse arcano, assim como outros, padece de uma, por assim dizer, distorção ou limitação em sua simbologia.


Se não o primeiro, talvez o mais conhecido estudioso do tarô a tratar desse assunto foi Aleister Crowley, que denomina o arcano XIV como A Arte, o que, em nosso sentir, é deveras apropriado, como veremos mais adiante.

O sentido mais conhecido desse arcano, sem dúvida, é o equilíbrio e a transmutação. A própria imagem nos transmite facilmente essas duas idéias centrais. A palavra “Temperança” deriva do latim temperantia e significa moderado. Na maioria dos baralhos está representada graficamente com um anjo que manipula dois recipientes com líquido que joga de um para o outro, lembrando bastante misturas alquímicas. Sim, esse arcano simboliza o equilíbrio e a transmutação de algo.

Mas não é só.

A Temperança trata da mistura de todas as circunstâncias, momentos e fatos que fazem nascer o equilíbrio. Fala de equilibrar as diferentes condições e situações da vida, da capacidade que temos em nos harmonizar ainda que estejamos diante de um problema.

Fala da mistura de elementos opostos, tema que podemos encontrar em outras lâminas. Porém, nesse arcano essa mistura é muito mais profunda. Não se trata apenas da união de duas polaridades, mas de uma fusão profunda do masculino e do feminino. Assim como o In_Yang dos orientais, na Temperança temos a compreensão de que a fusão dos opostos gera equilíbrio e transmuda a nossa vida.

Porém para a compreensão exata desse equilíbrio e transmutação se faz necessário um mergulho dentro de nós mesmos, pois A Temperança é exatamente esse mergulho retratado numa lâmina de tarô.

Dentro de nós temos a porção divina daquilo que nos criou. Embora não sejamos essa Divindade, paradoxalmente, nós somos. E a compreensão da nossa porção divina talvez seja a tarefa mais difícil em nossa vida diária, pois ao compreender o meu eu e o meu eu divino, também compreendo que o outro é de igual maneira divino. E então teremos também de nos fundir com o outro para atingir o equilíbrio.

A Temperança é a fusão alquímica do fogo e da água. Em outras palavras é a fusão de tudo aquilo que é oposto, e a vivência dessa fusão é que nos leva ao equilíbrio. Aliás, esse arcano nos fala que é preciso experienciar essa fusão para atingir a harmonia. Somente através da vivência dessa fusão é que, de fato, seremos equilibrados. Para que só a partir desse equilíbrio o novo possa surgir.

Não é tarefa fácil. A imagem serena da Temperança pode enganar os menos avisados, pois embora ela trate do equilíbrio e da harmonia, sua profundidade nos impõe assumir posturas difíceis. É um trunfo que nos oferece o bem, mas que nos alerta que para a consecução desse bem, é preciso vivenciar também o outro lado – a fusão das polaridades – talvez a tarefa mais difícil para muitos de nós, senão para todos nós.

Crowley chamou esse arcano de A Arte porque ele é em si a alquimia perfeita, a Grande Arte de nos fundirmos com o oposto, com o oposto de fora e com o oposto de dentro... todos dentro de nós. Em nós está a Grande Arte, nós somos os mistérios, dentro de nós residem os opostos, somos água e fogo, além de ar e terra.

A Temperança fala dos sentimentos ambivalentes por que é água e fogo, ambos os elementos relacionados com os sentimentos e com o espiritual, mas ao mesmo tempo opostos entre si.

No tarô mitológico está esse arcano é representado pela Deusa Iris, a Deusa do Arco-íris, a mensageira alada dos Deuses, aquela que realizava os desejos dos Deuses e dos humanos, sejam eles quais forem. Nesse sentido, A Temperança nos alerta para o fazer sempre tudo o que for possível para não perder a harmonia (ou falsa harmonia). Não há, portanto, crescimento, pois não há fluidez real. Por essa razão, A Temperança ode simbolizar a estagnação para não gerar conflito.

O arco-íris é a expressão da fusão da água com o fogo, já que é a água da chuva unida com a luz solar. O Deus africano Oxumaré, cujo símbolo é o arco-íris é metade homem, metade mulher. A bem da verdade, não seria bem isso, seria além... ele é a fusão do masculino e do feminino. Um Deus que, com certeza, caberia muito bem na representação mitológica desse arcano.

Diante de tudo isso, numa jogada, A Temperança pode significar uma união, um relacionamento, uma fusão que aparentemente poderá nos parecer conflitante, embora esse conflito não seja uma regra. Estamos diante do nosso oposto, talvez do nosso par perfeito para aquele momento, pois será através dessa união que atingiremos o equilíbrio interno para que algo novo possa surgir.

Está relacionado com todos os processos de transformação, processos que exigem não a pressa, mas ao contrário, uma lenta fluidez. Portanto, não espere muita rapidez nas questões que estão sob o domínio da Temperança, e lembre-se: o sucesso dependerá do quanto você conseguirá se fundir com os opostos e atingir o equilíbrio.

PALAVRAS-CHAVE: fusão, união, transmutação, alquimia, temperar, flexibilidade.

SITUAÇÃO: lenta, mas fluida, que necessita de cuidado, de adaptabilidade e flexibilidade. Idéias que depois de um período acabam se manifestando no plano físico.

ASPECTOS POSITIVOS: capacidade de unir aspectos, situações ou pessoas opostas, algo novo que pode ser obtido através do equilíbrio, harmonia, equilíbrio, capacidade de coordenar algo, de concentrar-se em algum objetivo, renovação de conceitos que pareciam imutáveis, purificação, exame harmonioso de questões conflitantes, relacionamento perfeito, o par perfeito, auxílio cósmico.

ASPECTOS NEGATIVOS: prostração, preguiça, uma situação demorada quando se tem pressa, carência, medo de dialogar, falta de diálogo, negligência, passividade, instabilidade, viver em função dos outros ou em função apenas de si mesmo, contemplação excessiva, relação dependência, solidão.





Figuras: The Fairytales Tarot; Igor Makarevich Tarot e Llewellyn Tarot

27 de fevereiro de 2009

ARCANO III - A IMPERATRIZ


A Imperatriz simboliza a vida plena, a preparação para os nascimentos físicos ou não. É por esse motivo que em muitos tarôs esse arcano é representado como uma mulher grávida sentada num trono, coroada e segurando um cetro, símbolos do comando, o comando dos mundos, pois ela é a Mãe do mundo.

Alguns autores sugerem que a denominação Imperatriz tenha sido uma modificação do original dessa carta. Uma pista de sua origem perdida talvez seja o Tarô Carey da Revolução francesa, datado de 1791, em que a Imperatriz e o Imperador carregavam a denominação de "A Grande Avó" e "O Grande Avô".

De toda forma, a Imperatriz é a representação da Mãe material, diferente da Sacerdotisa, que representa a mãe espiritual.

A Imperatriz nos traz a fertilidade, o amor, as mudanças advindas de um nascimento, que pode ser o nascimento de uma criança, de uma idéia, de um projeto, etc.

É o arcano 3 por que três é o número da multiplicação, do crescimento e da fertilidade.

Outra forma de enxergar esse arcano é como o encontro entre os opostos (por isso em uma jogada pode simbolizar um amor). Podemos dizer que é o encontro dos pólos masculino e feminino manifestados através da gestação. 1 (masculino)+2 (feminino)=3 (união). Nesse sentido temos a Grande Mãe, a Grande Deusa, geradora de tudo, cultuada há tanto tempo. Ela é para os Incas Pachamama (Pacha significa universo e mama mãe), para os egípcios ela é Mut, para os gregos é Deméter e para os hindus ela é a Deusa tríplice, as shaktis (elementos femininos de Deus).
É a representação da triplicidade da Deusa.

Ao estudar essa carta compreendemos porque algumas correntes admitem a preponderância do elemento feminino (a Deusa) ao elemento masculino (o Deus), pois ela é tríplice (jovem, mãe e velha) e contém em sua face Mãe o encontro com o Deus simbolizado pela gestação.

Ela é a geradora de tudo, a Deusa como origem de tudo o que existe, a mãe do mundo, a própria Terra.

Numa jogada ela traz a proteção, o casamento, o amor, o nascimento, a fertilidade.

Tal qual uma mulher grávida, ela nos traz a descoberta do corpo como um templo sagrado e valioso, e nos alerta para ter cuidado com as coisas do corpo, as coisas do mundo, as coisas materiais. Pode significar também que o consulente está descobrindo sua porção mulher, conscientizando-se de sua beleza - interior ou exterior - e preparando-se para projetar todo esse sentimento ao mundo através de seus atos.

Marca um período em que os sentimentos são infinitamente mais evidentes que os pensamentos.
Profissionalmente favorece ramos de alimentação, decoração, moda e artes.

A Imperatriz possui contornos diversos em alguns tarôs. Em alguns, como o de Marselha, ela exprime todo o seu poder de comando. Ela comanda o reino dos sentimentos, é esse o comando de que trata esse arcano.

No Old Path Tarot a Imperatriz é representada nutrindo seu filho. Nesse baralho ela não exprime sua autoridade com o cetro, a coroa e o escudo, como no de Marselha, mas nos ensina que a vida deve ser nutrida, alimentada e que, como dissemos, vida se alimenta de vida.

No tarô de Crowley duas luas simbolizam as faces da Deusa (e da mulher), é o desdobramento da mulher/deusa.

É um simbolismo interessante se pensarmos na relação da mulher com a lua. Ambas sempre estiveram relacionadas, o que se evidencia pela relação dos ciclos menstruais e as fases da lua. Por essa razão, pode significar problemas de saúde relacionados com a menstruação.

Ainda com relação à saúde, num aspecto de desequilíbrio, pode significar o aparecimento de doenças nos órgãos reprodutores, inclusive doenças venéreas.

Vale notar que A Imperatriz é vida, é plenitude é fertilidade pura. Porém, devemos lembrar que vida se alimenta de vida.

Qualquer que seja o aspecto de criação, é preciso que a vida termine e sua essência volte à origem para que uma nova semente possa germinar. Deméter não é apenas a mãe cuidadosa de Perséfone. Ela é também a mãe enlutada.
Essa é também a mensagem da Imperatriz para nós.

PALAVRAS-CHAVE: realização, fertilidade, maternidade, união, criação,feminilidade.

PERSONALIDADE: mulher que tem consciência de sua sexualidade ou uma mulher frívola; uma mãe bondosa ou uma mãe super protetora; a esposa, a mãe, a amante.
ASPECTOS POSITIVOS: casamento, união, amor, nascimento, mudanças, abundância, sentimentos, criação, riqueza, generosidade, prazer dos sentidos, dar e receber afeto, situação fecunda, inteligência criativa, boas relações, alegria, proximidade com jovens ou crianças, elaboração de projetos, etc.
ASPECTOS NEGATIVOS: luxúria, frivolidade, futilidade, super proteção, carência, esterilidade, ciúmes, perda de bens materiais, sedução vã, avareza, promiscuidade.

FIGURAS: The Heling Tarot e Universal Goddess Tarot

13 de fevereiro de 2009

Identidade: BRUXA

Alguns conceitos mudaram desde o meu primeiro contato com o mundo pagão.

De início, a maioria das pessoas se intitulava bruxa com muita naturalidade e até com certo orgulho. Para muitos era como se ser bruxa ou bruxo fosse mesmo um título.

Como bruxas, nos sentíamos diferentes, especiais, originais, dotadas de um conhecimento que nem todo mundo tinha.

Talvez esse quadro tenha se formado em razão da bibliografia à disposição. Os livros relacionados à Bruxaria tratavam de enaltecer o ser bruxa, filha da terra, mulheres que operavam sua alquimia na cozinha, entre os temperos e as panelas.

Todas as mulheres que, de alguma forma, se identificasse com as poéticas palavras dos livros passava a se autodenominar bruxa.
Depois de um tempo, houve quem levantasse a bandeira do não-bruxa dentro do próprio Paganismo. O argumento era que a palavra 'bruxa' fora usada como forma de estigmatizar pessoas, carregada, portanto, de uma conotação terrível e de baixa energia. Sendo assim, não seria o mais acertado usarmos a palavra 'bruxa'.

Nesse meio tempo, havia aqueles que defendiam que bruxa que é bruxa pratica Bruxaria. Trata-se, portanto, de uma religião. Dessa forma, impossível dizer que uma bruxa possa rezar o terço católico ou benzer usando preces cristãs ou de outra religião.

Pois bem, o tempo foi passando e nem precisou de muito tempo para que as pessoas acabassem, cada qual, seguindo seu rumo, umas desistiram de se autodenominar bruxas, outras acabaram por defender a Bruxaria como religião, outras 'esqueceram' a Bruxaria e passaram a se autodenominar 'caminhantes' ou, simplesmente, 'pessoas comuns'.

Então eu acabo, hoje, por me perguntar o que de fato é uma bruxa.

Pensei um pouco e cheguei a muitas conclusões, dentre as quais que, de certa forma, cada um desses pontos-de-vista tinham (ou têm) lá suas coerências.

Vamos falar do primeiro... AS BRUXAS QUE POETIZAM.

Nada mais poético e mágico que transformar a nossa casa, em especial a nossa cozinha, em um depósito de feitiços, encantamento e sonho.

Eu, muitas vezes, lendo alguns livros das bruxas que poetizam, me deliciei com a forma divertida, poética e mágica de descreverem o sentir bruxa, o viver bruxa. Me identifiquei muitas vezes, aprendi uma porção de coisas com aquelas palavras doces e cheirosas.

Para mim, as bruxas que poetizam têm a magia do viver a terra, possuem a graça e a força da Deusa, nos ensinam muito com esse lado poético, tratando a Bruxaria como ela deve ser tratada: como Arte.
Já AS BRUXAS QUE SE ESCONDEM... (eu acredito piamente que tem gente que esconde o jogo!) possuem características muito interessantes.

Já ouvi dizer, ou li em algum lugar, que bruxa que é bruxa não diz que é bruxa.

Essas pessoas que não querem o rótulo de bruxas, em minha opinião, não se curvam diante de rótulos, não procuram se dizer ?bruxas? para receber aplausos ou para ter um séquito. O que para mim tem tudo a ver com ser bruxa. Uma bruxa mesmo não precisa de rótulos, não precisa de seguidores.

A Bruxaria não prega o proselitismo.

O terceiro grupo, o das BRUXAS ATIVISTAS, talvez seja o mais forte dos três grupos.

Essas bruxas defendem sua Arte, exigem respeito, dão a cara à tapa, vão à luta pela sua Religião. Vivem, respiram Bruxaria e são ativas, reúnem pessoas para falar da Deusa e do Deus, esclarecem.

Existe muita confusão quando o assunto é Bruxaria...
As bruxas ativistas são, talvez, as que mais trabalhem em favor da Bruxaria, pois procuram desmistificar e tirar das sombras a Arte.

Vejo nos três grupos coerência e tenho minha opinião sobre se chamar ou não de bruxa. Mas procurei aqui levantar uns questionamentos acerca desse tema porque, de fato, creio que tudo o que nos separa é infinitamente menor daquilo que nos une. E isso quem disse foi Doreen Valiente.

Tenho amigos no grupo dos que poetizam, amigos no grupo dos que se escondem e amigos no grupo dos ativistas.
Cada qual com suas razões e seus argumentos para discordar ou concordar uns com os outros.

Mas, para mim, todos estão vivendo o Paganismo, ou Neopaganismo, cada um à sua maneira.

Ser bruxa, ser pagã, ser caminhante, ser uma pessoa comum... Cada um que assuma sua postura (ou não assuma), cada um que se denomine como quiser (ou não se denomine), mas que o façam em prol de algo maior, seja uma crença, uma ideologia, uma filosofia, uma religião, uma postura.

Meu desejo é que o Paganismo brasileiro seja mais unido em sua diversidade, que possamos conviver com o diferente, com aquele que pensa diferente.

Esse é, para mim, o mais importante e é o que nos identifica.

Eu opto por me identificar como BRUXA, mas dependendo da pessoa que pergunta eu me recolho porque não sou dada a ter gente pendurada pedindo feitiços ou iniciações. Portanto eu também opto por me esconder de vez em quando, apesar da minha identidade de bruxa.

E também gosto de poetizar e gosto do ativismo. De vez em quando eu desato a escrever (com certeza não tão bem como muitas bruxas que poetizam) e de vez em quando eu desato a defender a minha Religião, com questionamentos sempre, pensando e agindo.

Posso viver todo esse (falso) antagonismo?

Sou diferente de alguns... Mas será que somos assim tão diferentes?

Eu fico a me perguntar.

Beijos e Bênçãos,
Lua Serena

Figuras: desconheço os autores, se alguém souber me passe para eu colocar nos créditos. :)

7 de fevereiro de 2009

ARCANO I - O MAGO


O Mago, também chamado por alguns autores como O Saltimbanco ou O Mágico, representa o princípio, o início da concretização de uma vontade, a ação que leva a uma concretização. Somos nós agindo de acordo com a nossa vontade primeira. Essa é a idéia primeira do arcano um, o que explicaria, inclusive, O Mago ser o primeiro arcano.

O um simboliza tudo o que vem primeiro, a independência, a liderança, a iniciativa, o vanguardista, o pioneirismo em qualquer área da vida, a capacidade de pensar e realizar.

O Mago é O Louco maduro para alguns, aquele que já detém algum conhecimento, mas que não sabe de toda a sua potencialidade, aquele está no início de alguma etapa. É o aprendiz, o estudante, o candidato, o iniciante, o neófito com muito potencial que poderá tornar-se um dia O Hierofante, o mestre, o sacerdote, o superior hierárquico, o chefe, o conselheiro.

Num sentido mais espiritual, O Mago é aquele que possui aptidões para lidar com os elementos (ar, fogo, terra e água), é o bruxo no início de sua jornada.Nesse mesmo sentido, O Mago sabe criar através da manipulação dos elementos, mas não sabe por que faz isso e nem para que faz isso. Talvez falte no Mago um pouco de maturidade, compreensão e vivência para conhecer os mistérios espirituais.

No mundo dito profano, ou seja, no mundo material, podemos pensar no universitário recém formado (ou até aquele que ainda está se graduando) que é dedicado, que é estudioso, que conhece bem aquilo que seus professores lhe ensinaram, mas que ainda não possui vivência prática de seu ofício. É com certeza um profissional em potencial que poderá se tornar um grande líder, um grande mestre, mas ainda está no início de seu caminho. Talvez possa ser até um pouco arrogante... Mas isso é por que ele ainda está aprendendo.

No Tarô Mitológico, e também em outros baralhos, a figura mitológica atribuída a esse arcano é Hermes, Mercúrio, o mensageiro dos Deuses, o portador do Caduceu. Crowley chama O Mago de o portador do bastão, que é o símbolo do poder mágico. É com o bastão que o mago cria, dá forma no mundo material.

Para os autores do Tarô Mitológico, O Mago representa o mestre espiritual.

Para mim, mestre espiritual é O Hierofante.

O Mago seria, portanto, o aspirante, aquele que um dia poderá ser o mestre, O Hierofante.

No Mago temos a primeira iniciativa que nos levará ao Hierofante, buscamos no Mago a independência espiritual, nos tornando mestres de nós mesmos em muitos aspectos, ainda que ainda sejamos aprendizes de alguém.

Em boa parte dos tarôs, O Mago possui um chapéu em forma de oito deitado (lemniscata) que é o símbolo do infinito e do conhecimento esotérico.A mão esquerda do Mago está direcionada para o alto e a mão direito para o chão. Isso significa que O Mago conhece a máxima "em cima, como embaixo", de Hermes Trismegisto. Desta forma, O Mago conhece certas leis e faz uso delas para concretizar sua vontade.

A mão erguida segura o bastão, símbolo do poder ativo, do princípio masculino, o fogo.

Sobre a mesa podemos ver os símbolos dos outros três elementos dispostos.

A Taça, símbolo da água, princípio feminino, aquele que mantém a forma, o amor, a beleza; a espada, símbolo do ar, da mente, do astral, da transformação,da ousadia; o masculino; e a terra, símbolo da matéria, da posse, do feminino.

Há também uma tulipa aos pés do Mago (em outras representações verde, grama) que significa o início das atividade do Mago, a iniciação.

PALAVRAS-CHAVE: independência, iniciativa, pioneirismo, potenciais.VERBOS: iniciar, começar, agir, fazer.

SITUAÇÃO: o início de algo, o começo de uma empreitada.

PERSONALIDADE: um líder em formação, um jovem ou uma pessoa que inicia algo, um candidato, um pretendente, um aspirante, o ser humano que pode influenciar os acontecimentos naturais, alguém que poderá a ser uma pessoa importante na vida (ou na vida do consulente).

ASPECTOS POSITIVOS: início de alguma atividade, capacidade de organizar o início de algo, iniciativa, prontidão, força de decisão, vontade de criar/iniciar algo, vitalidade, eloqüência, comunicação, capacidade de aceitar riscos, inteligência, persuasão, habilidade, criatividade intelectual, capacidade analítica, capacidade de percepção.

ASPECTOS NEGATIVOS: arrogância, presunção, exibicionismo, mentira, falácia, roubo, engano,ambição desmedida, falta de escrúpulos, amotinação, atividades sem razão, falta de atenção, falta de paciência, empreendimentos infelizes, desentendimentos, isolamento.




Bênçãos,
Lua Serena
Figuras: The Yeager Tarot of Meditation e The Wirth Tarot

15 de dezembro de 2008

ARCANO XVI - A TORRE


Esse arcano talvez seja o que mais variedade de denominações possua. É mais conhecido como A Torre, porém também, pode ser encontrado como A Casa de Deus, A Destruição, O Raio, A Casa do Fogo, A Fragilidade, A Guerra.


Seu número é 16 e, segundo alguns autores, 4x4 significa o extremo da matéria, a matéria que atinge tamanha concentração e acaba por se desintegrar.

Na sua representação gráfica uma torre é fulminada por um raio – ou pelo fogo, em outras representações. É possível ver duas pessoas caindo no chão.

A Torre é o arcano da destruição, da mutabilidade, da transformação dolorosa. O raio ou a labareda que vem do céu representa a força que está além da nossa, a força dos Deuses, a força da qual não podemos escapar ou a qual não podemos enganar. A Torre é o símbolo da perda total. Ao fim do processo que A Torre encerra, teremos de construir novamente, tijolo a tijolo nosso lar, nossa vida, nosso amor, nosso trabalho, nossas amizades.

A destruição que a Torre traz é de tudo aquilo que construímos e que acabou nos aprisionando, ainda que neguemos isso, ainda que não notemos.

Esse arcano simboliza a destruição das formas, dos conceitos, de tudo aquilo que foi por nós construído, tijolo a tijolo, com dedicação e amor. Pode parecer um arcano nefasto numa primeira análise, pois tira de nossas mãos o que amamos, nos derruba dos postos que alcançamos com tanto empenho, destrói relações que construímos e mantivemos de forma profunda. O raio que atinge a Torre nos tira o chão, ou melhor, nos lança ao chão sem aviso. É doloroso, é por vezes traumático, mas é preciso que compreendamos que o raio destrói padrões que devem ser mudados. Muitas vezes construímos uma Torre linda, que nos protege das dores do mundo, é nosso lar, nosso refúgio. Sentir esse refúgio ser destruído por um raio é doloroso demais, deixa marcas, nos faz chorar, nos faz sangrar.

No entanto, a destruição da Torre é necessária.

Quando transformamos nossa Torre numa prisão, ela precisa ser destruída. Pode ser que nem notemos que transformamos nossa Torre numa prisão, pode ser que continuemos dizendo para nós mesmos que aquele é nosso lar, aquela é nossa vida, aquela Torre é nosso trabalho, é nosso amor, aquela Torre é nós mesmos...

A Torre destrói a vida organizada, a rotina, aniquila prisões externas (modo de vida, pessoas, trabalho) e internas (identidade, o eu). É o implacável fim doloroso, a destruição do véu de Maya (ilusão), a explosiva desintegração.

Se conseguirmos passar pela Torre e deixar aniquilar tudo aquilo que é necessário, passaremos para um estágio bem mais sereno. Lembre-se que as pessoas, na representação gráfica da carta, caem no chão, na Terra, na Mãe Terra... São sementes lançadas.

O raio que destrói a Torre nos abala, abala todas as nossas estruturas, nossa fé, nosso eu. Simboliza um poder acima do nosso, note que o raio, ou fogo, vem do céu, a morada dos Deuses.

É um arcano de vivência complicada e delicada, pede muita clareza e compreensão para passar pela situação que A Torre implica, para que não nos percamos durante a lição desse arcano.

PALAVRAS-CHAVE: destruição, evolução, dinamismo, mudança, transformação.

SITUAÇÃO: mudança inevitável e acima de nossa vontade. Destruição material ou não de uma situação que existia há bastante tempo.

PERSONALIDADE: pessoa transformadora, que traz mudanças ou que traz perdas.

ASPECTOS POSITIVOS: mudança, liberação, liberdade, tomada de consciência, destruição ou rompimento com padrões limitadores.

ASPECTOS NEGATIVOS: crise, destruição, perdas, quebras, ruína, desestabilização por erros próprios, decepção, fim doloroso de algo bom.


QUESTIONAMENTOS IMPORTANTES ACERCA DO ARCANO 16

Eu já passei por algum processo que lembre A Torre? Como foi? O que aprendi?
Tenho em minha vida alguma Torre, que eu pensei ser um refúgio, uma proteção e acabou por se revelar uma prisão?

Em relacionamentos eu já estive presa numa torre?

Costumo deixar morrer aquilo que precisa morrer em minha vida, mesmo que esse processo seja doloroso e brusco?

Quantas vezes eu caí na vida e o que aprendi com tudo isso?

Eu me deixo aprisionar facilmente?

Eu consigo distinguir proteção, cuidado e segurança de prisões?

5 de dezembro de 2008

As Três Faces de Afrodite


Afrodite talvez seja a Deusa grega mais conhecida pelas massas. Mas será que de fato a conhecemos?

Tentei reunir aqui um pouco do trabalho de pesquisa que fiz em busca das origens do culto e facetas de Afrodite, mas a medida em que minha pesquisa avançada, eu percebia que nenhuma pesquisa, por completa que seja, conseguiria tocar a verdade sobre a conhecida Deusa do Amor.

Há quem considere Afrodite uma variação da Deusa sumeriana do amor e da guerra, Inanna, e isso explicaria o nascimento de Afrodite ter sido no mar, pois somente por essa via o culto à Deusa do amor chegaria do oriente ao ocidente. Talvez seja por esse motivo que Afrodite é também considerada protetora dos viajantes.

De fato, estudando ambas, pude notar muitos pontos em comum. No entanto, a idéia central desse trabalho não é traçar uma comparação entre as duas Deusas, mas compartilhar minhas pesquisas focadas em Afrodite.

Começando pelo seu nascimento, encontrei três versões diferentes.

A primeira versão é segundo Hesíodo – poeta grego da idade arcaica, que escreveu “A gênese dos deuses” e “Os trabalhos e os dias” – para quem Afrodite teria nascido do falo de Urano, extirpado por seu filho Cronos.

Cronos, o filho mais novo de Gaia ou Geia e Urano (Terra e Céu), cortou os genitais do pai porque ele aprisionara seus irmãos nos confins da Terra, no Tártaro.

O falo de Urano foi jogado no mar e das espumas desse nasceu Afrodite. Essa versão explica a origem do nome de Afrodite, “nascida da espuma”.

Logo após seu nascimento, a Deusa nadou até chegar na ilha de Citera. Por isso também é conhecida pelo nome de Citeréia. Segundo a lenda, por onde Afrodite passava, a relva se renovava, as flores nasciam, ela trazia o amor maior, o amor que tudo fertiliza, que embeleza.

Vale, portanto, a associação da Deusa do amor com a primavera, pois está intimamente ligada à vida que se renova, às flores, aos nascimentos. Para corroborar essa associação, encontramos uma outra denominação para a Deusa, Antheia, a Deusa das Flores.

Depois de Citera, Afrodite foi para Chipre, onde foi recebida pelas Horas, guardiãs da porta do céu (o Olimpo) e filhas de Têmis, Deusa da Justiça. Nessa ocasião, Afrodite foi vestida por elas e, em seguida, levada à presença dos Deuses. Encantou a todos, claro!

É dessa versão do nascimento de Afrodite que nasce a chamada Afrodite Urânia, doadora do amor universal, da qual falaremos mais além.

A segunda versão de seu nascimento é encontrada, entre outras fontes, em Homero, poeta grego que viveu por volta de 850 a.C em Jônia, antigo distrito grego onde hoje situa-se a Turquia.

Homero escreveu Ilíada e Odisséia, porém, há sérias controvérsias históricas em razão da diferença de estilo entre as duas obras. A controvérsia é tanta que há quem ponha em dúvida, inclusive, a existência de Homero. Dessa discussão nasceu a expressão “questão homérica” a qual se diz quando estamos diante de um impasse.

Pois bem, segundo essa segunda versão do nascimento de Afrodite, descrita também por Homero, a Deusa teria nascido de Zeus e Dione. Porém, me parece que nessa versão encontramos uma forma de restringir a amplitude e força da Deusa.

Entre as discrepâncias encontradas nessa versão, a que mais me chamou a atenção foi o fato de Afrodite ser também conhecida pelo nome de Dione, que é a forma feminina de Zeus, conhecida como Deusa das águas, das fontes, do carvalho e dos oráculos, sendo essa última característica de Afrodite, pouco mencionada.

A terceira versão do nascimento de Afrodite é pouco conhecida. O que sabemos é que Afrodite teria nascido de um caramujo e desembarcado de uma concha na ilha de Citera.

Em Cnido – costa da Ásia maior – o caramujo é considerado uma criatura sagrada da Deusa.

Outra ligação de Afrodite com o caramujo está na lenda de que Afrodite, antes do Olimpo, viveu no mar, na companhia de um caramujo de extrema beleza chamado Nérites, filho de Nereu, uma das facetas da triplicidade da divindade do mar conhecida como “O Velho do Mar”.
Pouco se sabe dessa terceira versão do nascimento da Deusa, mas é inegável a relação de Afrodite com o caramujo.

Essas três versões da origem de Afrodite nos falam de seu nascimento na água. Afrodite nasce na água, ou da água do mar, o por nós conhecido útero primordial. Nós, seres humanos, também nascemos na água. Talvez nosso passado intra-uterino faça com que tenhamos tanto amor por essa Deusa maravilhosa, e talvez seja também esse nosso passado intra-uterino que nos dê a sensação de retorno às nossas origens quando mergulhamos no mar.

Outro ponto interessante sobre a força de Afrodite é que Ela é o amor que tudo gera.

Nós também somos, ou temos, esse amor que nasceu nas águas. A água é símbolo do nosso inconsciente, do nosso lado feminino, da fertilidade, da emoção.

O oceano primordial de onde crêem alguns termos nos originado me lembra muito o nascimento de Afrodite e sua relação com a humanidade.

Quem sabe Afrodite não seja a expressão humana dessa vida, pois tudo que ela toca se torna fértil, pulsante e vivo. Quem sabe Afrodite não seja essa própria força geradora da vida.
Afrodite e a humanidade, que realção impressionante. Mesmo entre os que dizem não cultuar a Deusa, nutre por Ela uma estranha ligação.

Como Deusa do Amor Maior, da beleza e da vida Afrodite também pode ser cruel, destruidora, como veremos. Nesse ponto reside a estreita conexão de Afrodite com a humanidade. Temos em nós esses dois pólos, essas duas versões de nós mesmos.

A bem da verdade, não seria correto dizer “dois pólos de Afrodite”. Poucos conhecem a versão tríplice da Deusa do Amor. Porém, noto que, cada vez que pesquiso sobre aspectos de determinada divindade, sempre encontro essa característica tríplice que, pasmem, também não pára no número três. Mas isso é assunto para outro texto.

Hoje o que conhecemos de Afrodite é reduzido ao quesito amor. Porém, Afrodite se mostra muito além do que se é possível escrever sobre a Deusa.

Afrodite não é somente a Deusa do amor e da beleza. A primeira face de Afrodite, em sua triplicidade, é Afrodite Urânia, distribuidora do amor universal, a doce, a bela, aquela que une os pares com amor, que dá cor e beleza ao mundo. É a Deusa do céu, das estrelas, do amor celestial. Sempre que penso nesse aspecto de Afrodite, me lembro da já mencionada Inanna, a Deusa dos Céus, como provedora, amorosa.
A segunda face é Afrodite Pandemos, que está intimamente ligada a questões carnais, sexuais, físicas, materiais. O amor sensual é domínio dessa faceta da Deusa, é Ela quem nos oferece os prazeres do corpo, que desperta o desejo, que nos faz querer a beleza para conquistar.

O terceiro aspecto é o menos conhecido, Afrodite Apostrófia, que significa “aquela que se afasta”. Esse é o aspecto destruidor da Deusa, o aspecto mais difícil e menos explorado.
É como se quisessem deixar à mostra somente o lado que convém. Vemos muito disso ao estudar essa Deusa.

Afrodite Apostrófia é que deturpa, a que escraviza e a que traz a mazelas, as desgraças. Penso muito nas modelos anoréxicas e bulímicas quando ouço o nome Afrodite Apostrófia.
Como dissemos, em verdade, não se trata de apenas três faces. O culto de Afrodite e suas faces vão variando conforme a época, o local e a ideologia do povo.

Temos, por exemplo, Afrodite Eleêmon, cultuada em Chipre como “A Misericordiosa”, cuja imagem se assemelha muito com a da Virgem Maria, porém, sem o aspecto da castidade.
Afrodite Pasifessa, “A que brilha longe”, conhecida como a Deusa lunar que rege os mistérios do inconsciente.

Afrodite Zeríntia, que muito se assemelha a Hécate. Afrodite Zeríntia é uma face da Deusa que está além do Olimpo, cujos domínios são além da Terra e do céu, assim como Hécate.
Para os atenienses, Afrodite Zeríntia era a mais velha das moiras.

Outro ponto em comum com Hécate era o sacrifício de cachorros, feitos em honra à Afrodite na costa trácia, posto que esse animal era consagrado à Afrodite Zeríntia.

Afrodite Genetílis, outra faceta da Deusa, também recebia sacrifícios. Ficou conhecida como Vênus Genetrix, pelos latinos, a Deusa dos partos.

Temos também conhecimento de um outro aspecto da Deusa, Afrodite Hetaira, que era venerada pelas cortesãs.

Diferentes das prostitutas pobres e não cidadãs, as hetairas eram treinadas desde cedo nas artes do sexo.

Aquele que comprava uma hetaira pagava uma soma muito alta. Tratava-se de um investimento. Muitos pagavam fortunas pelos favores sexuais das hetairas, e investiam também nos dotes artísticos delas.

É fato histórico que algumas hetairas acabaram comprando sua liberdade, tornando-se grandes e conhecidas mulheres.

Em Esparta, Afrodite era adorada como Enóplio, portando armas, e Afrodite Morfo, a acorrentada. Era chamada de “a de corpo bem feito” ou “a de várias formas”.

Afrodite Ambológera era adorada também em Esparta como aquela que adia a velhice, trazendo vigor físico.

Temos também a Afrodite Negra, ou Melena/ Melênis, dominadora dos mistérios da morte e destruição, aspecto relacionado com as Erínias.

Aliás, os aspectos negros de Afrodite são os que menos conhecemos. Podemos citar Afrodite Andrófono, a matadora de homens; Afrodite Anósia, a que peca, e Afrodite Tamborico, a cavadora de túmulos.

Existe também a ligação de Afrodite com Perséfone. Afrodite Persefessa era invocada como Rainha do submundo.

Interessante notar que Eurínome, a Deusa primordial dos pelasgos, também tinha relação com o mar, era a Deusa dos prazeres, governou antes do patriarcado olimpiano e foi rebaixada, deixada de lado.

Como podemos ver, Afrodite é muito mais complexa do que lemos por aí. Não daria para explanar toda a complexidade da Deusa nesse trabalho.

Afrodite não se resume ao amor físico, nem ao amor universal, nem ao sexo, nem à beleza. Ela rege tudo isso e muito mais. Afrodite é o amor entre seres e intra seres, é o amor que cria, mas é também o amor que ceifa.

Afrodite está presente no sexo, no prazer, Ela é o desejo, a vontade entre dois seres. É Ela quem faz com que duas pessoas se desejem e desse desejo mútuo, dessa explosão de energia entre dois corpos, duas mentes e dois espíritos possa ser criado um outro ser, pois Afrodite é doadora da vida também.
Afrodite é a própria beleza da Terra, não diz respeito somente a corpos jovens e esbeltos. Para Afrodite a beleza plástica não vale nada. Afrodite quer a beleza da mente, do corpo e do espírito.
De nada adiantará explorarmos as novidades cosméticas se não explorarmos nossa beleza real, aquela que é dada por Afrodite a todos, sem exceção.

Afrodite abençoou a todos com a beleza, é uma sabedoria que poucos compreendem.

Creio que Afrodite perguntaria às pessoas:

De que adianta a sua beleza, sua perfeição se você vive destrói o seu planeta?


De que adianta a forma física perfeita se é vazio por dentro?

Como pode você desejar a beleza constantemente na sua vida e degradar a sua casa?

Afrodite é doadora da beleza, do viço, porém, Afrodite também deseja que cada um de nós leve a beleza para a vida daqueles que nos cercam.

O que acontece com pessoas bonitas, jovens, que exercem sua sexualidade desmedida?

O que acontece com pessoas que em nome do amor aprisionam outro ser?

O que acontecem com pessoas que buscam a beleza vazia?

Solidão.

Solidão no sentido mais amplo.

Afrodite vai embora e leva consigo a real beleza, o sexo pleno, o amor verdadeiro.

É nessa hora que podemos conhecer a face da qual poucos falam, Afrodite Apostrófia, aquela que se afasta.
Figura: www.dailypainters.com

2 de dezembro de 2008

29 de novembro de 2008

ARCANO VII - O CARRO

O Carro é considerado por alguns estudiosos como a carta da vitória. Não é por outro motivo que no Tarô Egípcio esse arcano é chamado de O Triunfo. E, de certo modo, esse é um arcano de vitória, mas não simboliza uma vitória final.

O arcano VII simboliza a vitória da vontade. Alguém sob a influência desse arcano sente-se impelido a tomar as rédeas de sua vida, procura dirigir sua vontade para a consecução de seus anseios, ainda que não saiba definitivamente o que quer.
O Carro simbolizando a tomada das rédeas de nossas vidas, sem sombra de dúvida nos permite compreender por que esse arcano é tido como O Triunfo. Quando tomamos em nossas mãos a direção do carro de nossas vidas, somos vitoriosos. Quando não nos deixamos mais nos levar por fatores externos, por tudo aquilo que sufoca nossa verdadeira essência.

Representa, portanto, a renovação criativa, a vontade de equilibrar contradições internas ou externas, as emoções contraditórias, para poder decidir de forma correta.

É a primeira iniciação (morte e renascimento) pela qual passamos, deixando para trás certas rotinas, certos hábitos, para buscar novos horizontes, ainda que estejamos talvez perdidos pelo caminho. Essa iniciação gera dificuldades, pois para vencer o guerreiro deve aprender a ser soberano de seus instintos.
No Tarô Mitológico esta carta é simbolizada por Ares, o Deus da Guerra, significando nossos instintos mais fortes, prontos para guerrear.
Os dois cavalos que puxam o carro seguem direções opostas, simbolizando as contradições, as dicotomias que nos impedem de seguir nosso rumo. Conseguir guiar o carro diante das adversidades e de nossas próprias contradições é a grande vitória da qual trata esse arcano.
É a plena capacidade do ser humano em administrar uma situação através da maturidade, por conseguir experienciar os predicados de sua personalidade. É o triunfo alcançado mediante nossa vontade.
O arcano sete encerra o conjunto das sete primeiras cartas dos arcanos maiores, que representam o desenvolvimento da personalidade, das qualidades do ser humano. Simboliza, portanto, o fim de um ciclo e o início de outro, o sentido de uma iniciação (morte e renascimento).
A partir desse arcano um novo ciclo se iniciará e o iniciado precisa ser dono de suas vontades, conhecer a si mesmo e saber controlar sua vida para que compreenda, a partir do novo ciclo que se inicia, que não se é o personagem principal. Ainda que o ciclo seja desconhecido e provoque medo, o iniciado sabe que e deseja dar o próximo passo, mesmo que isso signifique romper com certos aspectos.

É representado graficamente nos tarôs clássicos como um jovem altivo que dirige um carro puxado por dois cavalos, um de cada cor e seguindo em direções opostas. O jovem segura em sua mão um cetro e em sua cabeça tem uma coroa.

PALAVRAS-CHAVE: progresso, independência, vontade, vitória.

PERSONALIDADE: pessoa determinada, disposta a fazer esforços, usando sua vontade para atingir objetivos, ainda que essa pessoa não saiba exatamente quais são.

SITUAÇÃO: o final de um ciclo e o início de outro, umas situação em vias de evolução, de transformação. Uma mudança que, embora possa gerar conflitos, será benéfica.

ASPECTOS POSITIVOS: coragem, vontade, determinação para vencer obstáculos, perseverança, mudança positiva, vitória, sucesso, boa viagem, boa sorte em projetos.

ASPECTOS NEGATIVOS: adversidades internas ou externas, incapacidade de transpor obstáculos, dificuldades para se controlar, fracasso causado por nossas próprias ações, desânimo, falta de energia e de vontade, incerteza, vaidade tola, falta de tato, covardia para enfrentar uma situação.

QUESTIONAMENTOS RELEVANTES ACERCA DO ARCANO VII

Eu sempre tive as rédeas da minha vida em minhas mãos?
Qual a o preço a pagar por ser dono(a) da minha vida?
Eu permito que outras pessoas me guiem pela vida? Pq?
Quais os meus aspectos mais contraditórios?
Sou capaz de conciliar meus aspectos contraditórios?
Eu costumo a tomar decisões baseadas em minha vontade? Pq?
Quando eu digo “sim” ou “não”, o faço de acordo com a minha vontade real?


Figura: Rider Waite