19 de novembro de 2007

Intimidade com os Deuses

Olás!

Eu adoro aquela brisa da manhã de primavera, quase de verão, mesmo em São Paulo com a poluição comendo solta...
Então, semana passada eu estava indo trabalhar, de pé no ônibus, quase chegando na Paulista, sentindo aquela brisa boa... Abri a bolsa para pegar um batonzinho e passar para tirar aquela cara de crente quando me deparei com um cabelo branco na minha cabeça. Ele estava lá, como quem não quer nada, mas querendo dizer muito. Eu fiquei olhando para ele, ele para mim...
Bom, eu nem sou tão velha, gente... Mas aquele cabelo branco na minha cabeça... Hum... Fiquei pensando se arrancava, se deixava... Afinal, eu pinto o cabelo mesmo, logo ele ia sumir na tinta.
Nessas de arranca, não arranca, eu comecei a ter um papo cabeça com o cabelo, rs*
Poxa... é bonito, que legal, é a primeira marca que a Velha Senhora deixa em mim... Bom, nem tanto, para falar a verdade eu já até tenho umas ruguinhas... Mas nada que uma boa base não engane!
Mas tudo bem, sabe... é só o começo, pensei. Um dia estarei velha, carregando a bagagem que os Antigos me deram... A bagagem dos anos, que legal... Um dia vou estar contando para os meus netos as minhas histórias. Umas eu sei que vão achar um saco, outras tenho certeza que vão dar boas gargalhadas.
Viver os Deuses é isso. Se você pensa nas três faces da Deusa (que para mim nem são só três, mas vamos lá), você tem que entender que vc não passa por elas, vc agrega cada face em si. Vc oscila entre uma face e outra tantas vezes. Eu percebi isso cedo, logo que fiz um filho quando ainda era uma ninfeta... hehehe
A face Mãe chegou rapidinho, meu corpo sentiu (e como sentiu) o ser mãe!
Claaaaro que com a Velhota não seria diferente, raios!
Vivenciar os Deuses é essa maravilha mesmo... Começa com um fio branco, uma linha perto dos olhos... Depois começam as dores nas costas, a gota! rs*
Coisas da vida! E o bom é viver mesmo a intimidade com os Deuses. A gente passa um tempão lendo sobre os Deuses, filosofando, debatendo... Mas bom mesmo é ser assim tão íntima Deles!
Eu sou tão íntima que a dúvida não permaneceu por muito tempo... Arranco, não arranco?
Lógico que eu arranquei!!!
Eu sou íntima mesmo! Qual é?! Eu arranquei, afinal de contas... Cabelo branco e rugas só fica charmante para os meninos (Olha o George Clooney).
Que venha a Anciã... mas que venha enxutona!

25 de outubro de 2007

Rabindranath Tagore


Escritor indiano, nasceu em Calcutá em 1861 e morreu em Bengala em 1941. Depois de educação tradicional na Índia, completou a formação na Inglaterra entre os anos de 1878 e 1880. Começou sua carreira poética com volumes de versos em língua bengali. Em 1931, recebeu o prêmio Nobel de literatura. Desde então, traduziu seus livros para o inglês, a fim de lhes garantir maior difusão. Em suas poesias, Tagore, oferece ao mundo uma mensagem humanitária e universalista. Seu mais famoso volume de poesias é Gitãñjali (Oferenda poética). Fundou, em 1901, uma escola de filosofia em Santiniketan, que, em 1921, foi transformada em universidade.

Gitanjali

Deixa a cantilena, o cântico e a recitação de contas de rosário!
A quem veneras neste recanto solitário e escuro dum templo de portas fechadas?
Abre teus olhos e vê que teu Deus não está diante de ti!
Ele está onde o agricultor está lavrando o chão duro e onde o pedreiro está rachando pedras.
Ele está com eles no sol e na chuva, e sua roupa está coberta de poeira.
Remove teu manto sagrado e como Ele desça para o chão empoeirado!
Libertação? Onde se encontra esta libertação?
Nosso mestre assumiu pessoalmente com alegria os vínculos da criação;
Ele está vinculado a nós para sempre.
Sai de tuas meditações e deixa de lado tuas flores e o incenso!
Que mal há se tuas roupas ficam gastas e manchadas?
Encontra-o e fica com Ele na faina e no suor de tua face.

Minha canção

Minha canção te envolverá com sua música, como os abraços sublimes do amor. Tocará o teu rosto como um beijo de graças. Quando estiveres só, se sentará a teu lado e te falará ao ouvido. Minha canção será como asas para os teus sonhos e elevará teu coração até o infinito. Quando a noite escurecer o teu caminho, minha canção brilhará sobre ti como a estrela fiel. Se fixará nos teus lindos olhos e guiará teu olhar até a alma das coisas. Quando minha voz se calar para sempre, minha canção te seguirá em teus pensamentos.

20 de agosto de 2007

Hino a Pã


Vibra do cio subtil da luz,
Meu homem e afã
Vem turbulento da noite a flux
De Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além
Vem da Sicília e da Arcádia vem!
Vem como Baco, com fauno e fera
E ninfa e sátiro à tua beira,
Num asno lácteo, do mar sem fim,
A mim, a mim!
Vem com Apolo, nupcial na brisa
(Pegureira e pitonisa),
Vem com Artêmis, leve e estranha,
E a coxa branca, Deus lindo, banha
Ao luar do bosque, em marmóreo monte,
Manhã malhada da àmbrea fonte!
Mergulha o roxo da prece ardente
No ádito rubro, no laço quente,
A alma que aterra em olhos de azul
O ver errar teu capricho exul
No bosque enredo, nos nás que espalma
A árvore viva que é espírito e alma
E corpo e mente - do mar sem fim
(Iô Pã! Iô Pã!),
Diabo ou deus, vem a mim, a mim!
Meu homem e afã!
Vem com trombeta estridente e fina
Pela colina!
Vem com tambor a rufar à beira
Da primavera!
Com frautas e avenas vem sem conto!
Não estou eu pronto?
Eu, que espero e me estorço e luto
Com ar sem ramos onde não nutro
Meu corpo, lasso do abraço em vão,
Áspide aguda, forte leão -
Vem, está fazia
Minha carne, fria
Do cio sozinho da demonia.
À espada corta o que ata e dói,
Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!
Dá-me o sinal do Olho Aberto,
E da coxa áspera o toque erecto,
Ó Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã.,
Sou homem e afã:
Faze o teu querer sem vontade vã,
Deus grande! Meu Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra
Do aperto da cobra.
A águia rasga com garra e fauce;
Os deuses vão-se;
As feras vêm. Iô Pã! A matado,
Vou no corno levado
Do Unicornado.
Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
Sou teu, teu homem e teu afã,
Cabra das tuas, ouro, deus, clara
Carne em teu osso, flor na tua vara.
Com patas de aço os rochedos roço
De solstício severo a equinócio.
E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
Sempiterno, mundo sem termo,
Homem, homúnculo, ménade, afã,
Na força de Pã.
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!



Fernando Pessoa

------------ --------- --------- --------- --------- --------- --------- --------- -----
O "Hino a Pã" é uma tradução do Hymn to Pan, do prefácio do livro "Magick in Theory and Practice", de Aleister Crowley. Esta tradução foi publicada em outubro de 1931 em "Presença", de Pessoa.

14 de maio de 2007

Paganismo e Cidadania


Se você não é um monge budista, uma freira carmelita descalça ou um ermitão, então com certeza já deve ter ouvido essa palavra: CIDADANIA. Mas será que sabe o que ela significa? E o que ela tem a ver com o paganismo?

Voltando do sítio ontem à noite, pela Rodovia Bunjiro Nakao (uma estradinha tortuosa que liga Vargem Grande Paulista à Piedade), eu fiquei impressionada com a quantidade de motoristas, geralmente em seus carros último modelo, que, sem ter noção nenhuma de respeito ao próximo, ignoravam completamente as “regras de etiqueta rodoviária” (leia-se “Código de Trânsito”) e simplesmente grudavam na traseira do nosso carro com a luz alta praticamente cegando o motorista em todos os espelhos, forçando-nos a sair da estrada (sem acostamento), só porque seu carro era mais novo ou mais potente (ta, podem até existir outros motivos, de repente o cara estava indo tirar o pai da forca, ou então estava com uma tremenda diarréia, eu particularmente torço pela segunda opção). O que eu me pergunto é: será que essas pessoas se esqueceram completamente o que é viver em sociedade?

A realidade em que vivemos está cada vez mais nos fazendo acreditar que quanto mais temos, mais podemos. Não existe mais o conceito de que “todos são iguais perante a lei”, e essa imagem é reforçada diariamente quando vemos televisão ou lemos nos jornais aqueles que deveriam servir de exemplo máximo de integridade, nossos governantes, comendo pizza nas CPIs do Congresso. Ou seja, “se eu tenho dinheiro pra comprar um Corola 2007, por que tenho que ficar atrás desse carro velho? Sou melhor e mereço estar sempre na frente” tsc tsc tsc. O que esse ser merece são umas boas palmadas!!!

O que mais me dá esperança é o fortalecimento do neopaganismo. A partir do momento que acreditamos que os deuses estão em todos os lugares, e não apenas no céu vigiando todo mundo com seu olhar inquisidor e punidor, e sabemos que nossas contas são pagas aqui, e às vezes agora, e não no Dia do Juízo Final, passamos a respeitar mais aqueles com quem convivemos. Nós acreditamos (pelo menos EU acredito) nos deuses que vivem nas pessoas. Por exemplo, já pensou furar uma fila no banco e ficar bem na frente de uma Nêmesis com pressa e mil contas a pagar? Xiii......

Quando colocamos um Deus lá no céu, podemos fazer o que quisermos com a Terra. Mas nós já sabemos as conseqüências disso, não é mesmo? Aquecimento global, poluição, desmatamento, desigualdade social, fome... Já o paganismo traz os deuses de volta! Nós convivemos com eles, somos seus templos, seus locais de adoração. Isso torna nossa rotina num ato de viver sagrado.

São esses os valores que o paganismo tem que passar para as próximas gerações. Ao invés de se ficar discutindo sobre (auto)iniciação, rodas do ano e quem está certo ou errado, quem pode mais ou menos, quem é grande ou não, a maior responsabilidade dos pagãos hoje em dia é transmitir as idéias de RESPEITO, INTEGRIDADE, HONESTIDADE e CIDADANIA. Quem sabe assim o paganismo possa finalmente ser levado a sério!

26 de abril de 2007

Adoração à Mãe


Swami Vivekananda (Obras Completas – Vol. VI)


Os dois fatores conjuntos de percepção dos quais nós nunca conseguimos nos livrar são a felicidade e a infelicidade – as coisas que nos trazem dor também nos trazem o prazer. O nosso mundo é feito dessas duas coisas. Nós não podemos nos livrar delas; elas estão presentes no pulsar da vida. O mundo está ocupado tentando reconciliar esses opostos e os sábios tentando achar a solução dessa mistura dos opostos. O escaldante calor da dor é interrompido por breves descansos, os débeis raios de luz cortam a escuridão em flashes intermitentes apenas para realçar a profunda escuridão.


As crianças nascem otimistas, mas o resto da vida mostra-se uma contínua desilusão; sequer um ideal pode ser completamente alcançado, a sede mal pode ser completamente mitigada. Dessa forma se continua na busca da solução para esse enigma, e a religião assumiu para si essa tarefa.


Nas religiões dualistas, entre os persas, havia um Deus e um Satã. E isso, através dos judeus se espalhou por toda a Europa e América. Essa era uma hipótese que funcionava há milhares de anos atrás; mas agora nós sabemos, ela não é sustentável. Não existe nada absolutamente bom ou ruim; uma coisa é boa para uma pessoa e ruim para outra; o mal hoje, o bem amanhã e vice-versa....


No princípio Deus era, é claro, o Deus de um clã, então Ele se tornou o Deus dos deuses. Com os antigos egípcios e os babilônios essa idéia (dessa dualidade Deus/Satã) era aplicada de forma muito prática. O Moloch deles se tornou o Deus dos deuses e os deuses capturados eram forçados a prestar reverência em Seu templo.


Ainda assim o enigma continua: Quem é responsável por esse mal? Muitos esperam o impossível de que tudo é bom e que somos nós que não entendemos. Nos agarramos às migalhas enquanto enterramos nossas cabeças na areia. Mas ainda assim todos nós seguimos a moralidade que tem como âmago o sacrifício – não eu mas Vós. E ainda assim, como tudo isso se choca com a idéia de um grande e bom Deus do universo! Ele é tão egoísta, a pessoa mais vingativa que conhecemos, com suas pragas, a fome e a guerra!


Todos nós devemos ter experiências nesta vida. Podemos tentar fugir das experiências amargas, mas mais cedo ou mais tarde elas nos alcançam. E eu tenho pena do homem que não encara o todo.


O Manu Deva dos Vedas na Pérsia foi transformado em Arimã. A explicação mitológica dessa questão estava morta, mas a pergunta permaneceu. E não houve resposta. Ficou sem solução.


Mas havia uma outra idéia nos antigos hinos védicos à Deusa: “Eu sou a luz. Eu sou a luz do sol e da lua; eu sou o ar que anima todos os seres”. Este foi o embrião que mais tarde se desenvolveu na adoração à Mãe. Na adoração à Mãe não se faz diferença entre pai e mãe. A primeira idéia que se depreende é a idéia da energia – Eu sou o poder que reside em todos os seres.


O bebê é corajoso. Ele prossegue até se tornar um homem de poder. A idéia de bem e mal no início era indiferenciada, não havia ainda sido desenvolvida. Uma consciência em desenvolvimento tem o poder como sua idéia principal. Resistência e esforço à cada passo é a lei. Nós somos o resultado dessas duas coisas, energia e resistência, poder interno e externo. Cada átomo está criando e resistindo à todos os pensamentos na mente. Tudo o que nós vemos e conhecemos não é senão o resultado dessas duas forças.


Essa idéia de Deus é algo novo. Nos hinos védicos Varuna e Indra banham os devotos com os mais preciosos presentes e bênçãos, uma idéia muito humana, mais humana que o próprio homem.


Esse é o novo princípio. Existe apenas um poder por detrás de todo o fenômeno. Poder é poder em todos os lugares, quer seja na forma do mal ou como salvador do mundo. Então essa é a nova idéia. A velha idéia era homem e Deus. E aqui está a primeira abertura da idéia de um poder universal.


“Eu estico os arcos de Rudra quando Ele deseja destruir o mal” (Rig Veda, X. 125, Devi-Sukta).


Logo no começo do Bhagavad Gita encontramos (IX, 19, também X. 4-5): “Ó Arjuna, Eu sou a existência e a não-existência, Eu sou o bem e o mal, Eu sou o poder dos santos, eu sou o poder dos perversos.” Mas logo, aquele que fala remenda a verdade e essa idéia adormece. Eu sou o poder no bem enquanto se executam as boas obras.


Na religião da Pérsia, havia a idéia de Satã, mas na Índia não existe nenhum conceito de Satã. Mais tarde os livros começaram a trazer esta nova idéia. O mal existe e não há como se esquivar desse fato. O universo é um fato; e se ele é um fato, ele é uma grande mistura do bem e do mal. Quem quer que governe deve governar sobre o bem e o mal. Se esse poder nos faz viver, esse mesmo poder nos faz morrer. O riso e a lágrima são parentes, e existem mais lágrimas do que risos no mundo. Quem fez as flores, quem fez os Himalaias? – um Deus muito bom. Quem fez meus pecados e minhas fraquezas? – Karma, Satã, ser. O resultado é um universo manco e naturalmente o Deus do universo é um Deus manco.


A vista da absoluta separação entre o bem e o mal, como duas realidades com existências apartadas, nos torna antipáticos, de corações embrutecidos. A boa mulher repudia a prostituta. Por quê? Ela pode ser infinitamente melhor que você em muitos aspectos. Esta visão traz um ciúme e um ódio eterno no mundo, eternas barreiras entre homem e homem, entre o homem bom e aquele comparativamente menos bom ou mesmo mau. Essa visão brutal é puro mal, pior do que o próprio mal. Bem e mal não tem existências separadas, mas existe uma evolução do bem, e aquilo que é menos bom nós chamamos mal.


Alguns são santos, outros pecadores. O sol brilha sobre o bem e o mal da mesma forma. Existe alguma distinção para ele?


A velha idéia da paternidade de Deus está conectada com a doce noção de um Deus responsável pela felicidade. Nós queremos negar os fatos. O mal é não-existente, é zero. O “Eu” é o mal e existe demais. Sou eu um “zero”?. Todos os dias tento me ver assim e falho. Todas essas idéias são tentativas de se esquivar do mal, mas nós temos que encará-lo. Encarar o todo! Por acaso eu assinei algum contrato de amar a Deus apenas parcialmente, quando ele me dá felicidade e aquilo que é bom e não quando ele me apresenta a infelicidade e o mal?


A luz sob a qual uma pessoa falsifica uma assinatura e uma outra assina um cheque de milhares de dólares para mitigar a fome, brilha sobre ambos, não conhece nenhuma diferença. A luz não conhece o mal – você e eu fazemos dela algo bom ou mal.


Esta idéia deve ter um novo nome. Ela é chamada Mãe, porque num sentido literal ela teve início há muito tempo atrás com uma escritora sendo elevada à categoria de deusa. Então veio o Sânkhya, e com ele toda a energia é feminina. O imã está imóvel e as limalhas de ferro estão ativas.


O mais elevado de todos os papéis femininos na India é o da mãe, mais elevado que o de esposa. Esposa e filhos podem abandonar um homem, mas sua mãe nunca o abandona. A mãe o ama da mesma forma ou talvez até um pouco mais. A mãe representa o amor transparente que não conhece troca, o amor que nunca morre. Quem pode ter tal amor? – somente a mãe, não o filho, nem a filha ou a esposa.


“Eu sou o Poder que se manifesta em todos os lugares”, diz a Mãe – É Ela quem está criando este universo, e é Ela quem em seguida o destruirá. Desnecessário dizer que a destruição é apenas o começo da criação. O pico de um monte é apenas o início de um vale.


Seja corajoso, encare os fatos como fatos. Não julgue o universo pelos seus males. Males são males. E daí?


Afinal de contas, tudo não passa de um jogo da Mãe. Nada muito sério. O que poderia mover a Toda Poderosa? O que fez a Mãe criar o universo? Ela poderia não ter nenhuma meta. Porquê? Porque a meta é algo que ainda não foi atingido. Por que, então, existe a criação? Apenas por diversão. Nós nos esquecemos disto e começamos a brigar e a sofrer a infelicidade. Nós somos os companheiros de jogos da Mãe.


Olhe a tortura que a mãe suporta para criar o bebê. Será que ela desfruta disto? Certamente. Jejuando e rezando e vigiando. Ela a ama mais do que a qualquer outra coisa. Porquê? Porque não existe egoísmo.


O prazer virá – bom: quem o proíbe? A dor virá – dê as boas vindas a ela também. Um mosquito estava pousado sobre o chifre de um touro; então sua consciência o incomodou e ele disse: “Sr. Touro, eu estou pousado no seu chifre há um bom tempo. Talvez eu o esteja incomodando. Desculpe-me, eu irei embora.” Mas o touro respondeu, “Oh, não, absolutamente! Traga toda a sua família e vivam todos no meu chifre; que mal vocês podem me fazer?”


Por que não podemos dizer a mesma coisa para a infelicidade? Ser corajoso é ter fé na Mãe!


“Eu sou a Vida, Eu sou a Morte”. Ela é aquela cuja sombra é a vida e a morte. Ela é o prazer em todos os prazeres. Ela é a infelicidade em toda a infelicidade. Se a vida vem, é a Mãe; se a morte vem, é a Mãe. Se o paraíso vier, é Ela. Se vier o inferno, ali está a Mãe. Mergulhe nEla. Nós não temos nem fé, nem paciência para ver isso. Nós confiamos no homem da rua, mas existe um ser neste universo em quem nunca confiamos. E esse é Deus. Nós confiamos nEle quando ele funciona a nosso favor. Mas chegará o momento quando, golpe após golpe, a mente auto-suficiente morrerá. Em tudo o que fazemos, a serpente do ego está se elevando. Somos felizes por existirem tantos espinhos no caminho, porque eles ferem a serpente.


Por último virá a auto-entrega. Só então seremos capazes de nos entregar à Mãe. Se a infelicidade chega, que seja bem-vinda. Se a felicidade chega, que seja bem-vinda. Só assim, quando chegarmos a esse amor, tudo o que é torto se endireitará. O brahmin, o pária e o cachorro serão vistos da mesma forma. Até que amemos o universo com a mesma visão, com um amor imparcial e imortal, estaremos sempre perdendo. Mas então tudo haverá desaparecido e veremos em tudo a mesma infinita e eterna Mãe.

24 de julho de 2006

A Baco


Não há respostas!
Na beira da praia
Não sei se reflete teu rosto
Ou se são as águas do meu mar nele refletido
Na clareira da mata
Não sei se danço para ti
Ou se danças dentro de mim
Em noite escura
Não sei se ouço zumbidos
Ou se é teu sopro, tua flauta
Em noites de solstício
Não sei se é o fogo da fogueira
Ou se é teu vinho, tua dádiva
Em minhas vidas
Não sei se tua eu fui
Ou se o tenho dentro de mim
Não há respostas!
Deu, toque para mim!
Em mim...
Eu danço para ti!
Para mim...
Somo um.

15 de maio de 2006

Stonehenge da Amazônia

Observatório celeste descoberto na Amazônia

Arqueólogos descobriram num ponto remoto do Amapá o que parece ser o maior observatório astronômico do Brasil pré-colonial. O observatório é formado por 127 blocos de granito distribuídos em intervalos regulares por uma clareira, a 16 quilômetros do município de Calçoene e a 390 quilômetros de Macapá. Para os arqueólogos, só uma sociedade com uma cultura complexa poderia ter construído o monumento. Para eles, o achado contribui significativamente para enterrar a idéia de que a Amazônia nunca abrigou sociedades desenvolvidas. Monumento pode ter até 2.000 anos de idade Por enquanto, é impossível precisar a idade do observatório. Mas, para os pesquisadores, ele teria entre 500 e 2.000 anos de idade. A estimativa foi baseada em fragmentos de cerâmica encontrados junto aos monolitos (blocos de pedra), alguns com três metros de altura. Porém, só com as escavações que começam agora será possível saber a idade do observatório. A arqueóloga Mariana Petry Cabral, do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa), explica que o monumento era conhecido pela população local há muitos anos, mas jamais havia sido estudado. A importância dos blocos foi reconhecida quando técnicos do Iepa e da Secretaria de Indústria, Comércio e Mineração foram realizar um levantamento econômico da área e tiveram a atenção despertada pelo alinhamento das pedras. Mariana diz que o local deveria ser uma espécie de templo e poderia ter sido usado como observatório astronômico. Já se descobriu que as pedras estão dispostas de forma a marcar o solstício de inverno e que em dezembro o Sol passa exatamente pelo meio de uma das pedras. Sabe-se que antigos povos da Amazônia se orientavam pela posição das estrelas e as fases da Lua para plantar e realizar rituais religiosos. Para os pesquisadores do Iepa, o monumento do Amapá é o Stonhenge da Amazônia — uma alusão ao complexo monolítico de Stonehenge, em Salisbury, sul da Inglaterra. Stonehenge é uma espécie de altar de pedras e teria sido erguido há 5.000 anos. Até hoje, não se sabe nem exatamente qual sua função e muito menos quem o ergueu. O modo como as pedras enormes foram levadas pera o local também permanece um mistério. O monumento da Amazônia traz os mesmos mistérios. Os arqueólogos não sabem que povo pode tê-lo construído e qual era sua função exata. A tecnologia empregada para cortar e transportar as pedras para o lugar e dispô-las em círculo é uma incógnita. O grupo do Iepa supõe que as pedras foram levadas de barco e chegaram ao local por um braço de rio conhecido como Rego Grande.

Jornal O Globo - Povos do passado

A identidade dos autores do Stonehenge da Amazônia pode estar nos fragmentos cerâmicos deixados por eles. Até a chegada dos europeus, a Amazônia abrigava numerosas culturas, a grande maioria delas hoje extinta. Esses povos desenvolveram formas distintas de trabalhar suas cerâmicas. — Sabemos muito pouco sobre a arqueologia do Amapá. Mas um fato é que a região tinha muitas etnias — explica Mariana Petry Cabral. Ela está convicta, porém, que um povo capaz de erguer um monumento tão impressionante certamente pertencia a uma sociedade bem organizada. Os pesquisadores já descobriram um fragmento que parece ter sido parte de uma urna funerária. Nele há a marca de uma mão, uma característica já encontrada algumas culturas da Amazônia. — Moradores nos contaram que acharam no lugar há alguns anos duas urnas funerárias. Temos esperança de encontrar mais — diz a arqueóloga. Descobertas recentes por toda a Amazônia vêm aos poucos escrevendo uma nova história da ocupação da floresta. Cada vez mais indícios de culturas bem organizadas, algumas surgidas há mais 5.000 anos, são encontrados.

Fonte: O Globo http://oglobo.globo.com/jornal/ciencia/247146542.asp

4 de maio de 2006

Mistérios Femininos (Parte II)


Lua Adversa
Tenho Fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases ,como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles


A lua e a mulher sempre foram associadas. Não é difícil notar porque, já que o ciclo menstrual da mulher é de 28 dias, assim como o ciclo da Lua.
Por esse motivo, acredita-se que para os antigos, a mulher detinha o poder da criação, da morte e do renascimento, ela era regente de tudo que era mutável, transitório.
Pretendo vasculhar um pouco o campo da História para localizar essas afirmações no tempo, mas por hora vamos nos ater ao assunto desse artigo.
Pois bem, em razão de toda essa associação, a lua era e é, para nós, o símbolo da mulher. A mulher e sua "estranha" essência tantas vezes vista e expressada pelas mãos de artistas. Só um artista mesmo para falar dos segredos de uma mulher, essa lua tão adversa!
Desde o poema da maravilhosa Cecília, até a Mulher de Fases, cantada pelo extinto Raimundos, temos tentando compreender essa essência.
Nós mulheres, tão ocupadas com o dia-a-dia, corre-corre, deixamos esquecido no fundo de alguma gaveta empoeirada esse tesouro, o tesouro de ser mulher.
Eles, os homens, enxergam a transitoriedade da mulher como esquisito, por vezes temeroso, algo que não deveira ser como é.
Sem falar da menstruação, "sangue sujo" do qual o homem sente nojo, mas esquece que não fossem os ciclos de suas mães, eles não estariam pisando a Terra.
Acho triste falar na perda que, nós mulheres, tivemos quando do distanciamento dos ritos envolvenedo a menarca e a menopausa (temas tratados na primeira parte do bate-papo).
Acho triste, mas nem por isso deixarei de mencionar.
Já ouvi e li uma série de textos falando sobre a culpa do patriarcado, do cristianismo, dos homens. Todos eles como grandes carrascos malévolos que acabaram com as pobres mulheres indefesas e tão boazinhas.
Confesso que até cheguei a acreditar nisso, afinal, é muito cômodo arrumar um culpado pelas nossas desgraças.
No entanto, não estamos diante de uma novela, mas diante da vida. Não somos personagens descartáveis criados por novelistas medíocres.
Somos seres tão complexos, culpados e inocentes de tanta coisa, vilões e heróis de nós mesmos tantas e tantas vezes...
Como dizer que o homem é culpado pelo afastamento da mulher e seus ciclos, se ouço da boca de mulheres, na maioria das vezes, as reclamações e demonstrações de nojo de sua menstruação?
Idéia incutida?
Também não descarto de todo. Mas o que desejo é abrir um pouco a mente das mulheres, para que essas abram as mentes de seus pares e, em noites de lua adversa, o consorte não vire para o lado e durma enquanto a mulher se revira na cama com sede e sem coragem de se entregar
por causa do sangue entre suas pernas.
Sabemos que muita neurose, a tão falada e polêmica TPM, foram "presentes" dados por anos e anos de desequilíbrio, vêm de uma grande mentira que nos foi contada, vêm do desequilíbrio entre os pólos feminino e masculino.
Creio ser possível mudar esse quadro.
Homem, permita-se mudar, abrir a mente e enxergar o que são as "fases tão problemáticas" da mulher.
Mulher, comece com você mesma, observe-se. Chega de comentários do tipo: "ser mulher é horrível", "mulher dá à luz", "mulher fica menstruada", "mulher não goza", "na outra vida quero ser homem".
O primeiro passo para uma conexão com a Deusa e a plenitude feminina é mudarmos nossa forma de pensar.
Se não nos libertarmos do preconceito que envolve a mulher, e claro, a menstruação, não ocorrerá conexão com a Deusa.
O segundo passo consiste numa análise de seu ciclo.Comece anotando os dias em que ocorre a sua menstruação.
Anote em um caderno os seus sentimentos, sonhos, sensações que antecederam o dia da menstruação e também durante o período menstrual.
Interessante notar que, mulheres no período menstrual têm maior tendência a sonhar com flores vermelhas e animais. Já no período de ovulação, a tendência é de sonhar com pérolas, ovos e jóias.
Li isso num livro uma vez e acabei por constatar que ocorria o mesmo comigo.
Preste atenção ao contexto em que eles aparecem e tente fazer uma interpretação.
Interessante também é o conceito de espécies de ciclo, vejam:
Ciclo da Lua Branca: ocorre quando a menstruação acontece na Lua Nova e a ovulação acontece na Lua Cheia.Essas mulheres possuem melhor condições para expressar sua criatividade por meio da procriação. Fica claro, pois a Lua Cheia
é a Lua Mãe e a mulher está no seu auge de fertilidade nessa fase também.Mulheres deste ciclo são chamadas de "boa mãe".Portanto, camisinha!
Ciclo da Lua Vermelha: Ocorre quando a menstruação acontece na lua cheia e a ovulação acontece na Lua Nova.Essas mulheres possuem a oportunidade de conhecimento interno. É a bruxa plena, a buscadora, aquela que sabe usar sua energia
sexual não só para meios procriativos.

Ambos os ciclos são expressões da energia feminina, fazem parte da mulher e cada uma de nós oscila entre esses dois ciclos de
acordo com as fases de nossas vidas.
Quando há essa oscilação, geralmente nos encontramos numa fase um pouco conturbada. Essa fase de transição pode até ser marcada com "problemas" conhecidos como sintomas de TPM.

Um outro exercício até bem simples consiste na observação das fases lunares.
Note as alterações em seu humor, levando em conta o período menstrual, a ovulação.
Tenha as fases como um instrumento a se trabalhar, afinal, como já dissemos, Lua, Sangue e Mulher sempre estiveram associadas. Em várias línguas as palavras menstruação e Lua são as mesmas ou estão relacionadas. Notem que "mens" significa "Lua".
Na verdade, quando criamos o hábito de analisar os ciclos, nos aprofundamos com a nossa essência mutável e, consequentemente, a conexão com a nossa parte feminina e, claro, com a Deusa, torna-se mais forte.
A partir disso, nossa intuição se aguça, nosso poder pessoal torna-se mais forte, nosso emocional fica mais equilibrado.
Podem apostar nisso.

Comecem a prestar atenção em pequenos detalhes, anotem emoções, sensações, analise. Vocês verão o quanto isso fará bem.

Alguns livros interessantes sobre o tema:

A Grande Mãe - Erich Neumann
As Deusas e a Mulher - Jean Shinoda Bolen
Os Mistérios da Mulher - M. Esther Harding
A Deusa - Teresa Moorey
O Livro Mágico da Lua - D.J. Conway
O Anuário da Grande Mãe - Mirella Faur