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. : Encantamento : .


Giremos em torno do caldeirão,
para lá jogarmos intestinos envenenados.
Sapo, que durante trinta e um dias
e trinta e uma noites
ficaste dormindo embaixo de pedra fria,
teu veneno vertendo, ferve,
em primeiro lugar na panela encantada.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Filé de serpente dos pântanos,
no caldeirão ferve e cozinha.
Olhos de camaleão e dedo de rã,
pêlo de morcego e língua de cão,
forquilha de víbora e ferrão de lacrau,
perna de lagarto e asa de corujinha,
para fazer um encantamento de poderosa força,
fervei e borbulhai, como filtro infernal.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Escamas de dragão, dente de lobo,
múmias de feiticeiras, mandíbulas e estômago
de voraz tubarão,
raiz de cicuta arrancada nas trevas,
fígado de judeu blasfemo, fel de bode
e ramos de teixo cortados em noite de eclipse da lua,
nariz de turco e lábios de tártaro,
dedo de criança estrangulada ao nascer
e lançada pela mãe num fosso,
fazei que a massa fique espessa e viscosa.
Acrescentemos, em nosso caldeirão,
entranhas de tigre como ingredientes.

Dobrem e redobrem
a lida e o trabalho.
O fogo cante
e o caldeirão borbulhe.

Vamos esfriá-lo com sangue de babuíno
para que o feitiço seja firme e forte.


in Macbeth, Shakespeare (1606)



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Sexta-feira, Outubro 22

Mistério do Desconhecido

Mistério do Desconhecido
Quem comanda os ventos sou eu
Sou eu a força da tempestade
O olho do furacão
Eu sou o poder do não
Eu sou a voz da multidão
O grande clarão de luz
Removo as terras
Broto no árido sertão
Sou o silêncio, a paixão
Desctruo como o tufão
Sou o sim, o talvez, o senão
O nada, aquilo que brota das entranhas
Faço chover, faço chorar
Sim, também sei fazer amar
Sou o futuro, o desconhecido
O misterioso elemento da natureza
A torpeza do olhar da servidão
Quem busca por mim
Não encontra
Quando todos dormem
Estou a caminhar na escuridão
Alimento dúvidas, colho a incerteza
Sou a beleza
Estou em todos os cantos
Mas somente em prantos me vês
Autor: Carlos Eduardo Sabbag Pereira

publicada por Lua Serena às 5:13 PM 0 Comentários

Domingo, Outubro 3

Vontade de gritar

Quero compartilhar com o mundo a vontade de gritar.
Não me importo com o que meu vizinho vê.
O que me importa é a capacidade humana de poder compartilhar a vontade de gritar.

Sinto um fremito percorrendo meu corpo, como um vulcão em chamas que cospo fogo pela garganta e derrama labaredas no próprio pescoço.

Quero compartilhar com o mundo a vontade de gritar.
Não me importo com os cérebros estúpidos que culpam a mordida de Eva.
O que me importa é a capacidade humana de poder compartilhar a vontade de gritar.

Vem vindo de longe um vento forte, a respiração de deus no meu rosto.
Sinto bem debaixo dos meus pés o coração terreno pulsando, compasso musicado.

Quero compartilhar com o mundo a vontade de gritar.
Sem me importar com quem vou incomodar, os ouvidos sensíveis que vertam sangue.
O que me importa é a capacidade humana de poder compartilhar a vontade de gritar.

Compreendi que é inevitável a idiotia humana,
Compreendi que é possível, então, viver com isso.
Não me restar chorar, não me resta pesar.
Me resta gritar.
E compartilhar com o mundo a vontade de gritar.
Tenho pressa...
Hei de ser a estrela que brilhará, ainda que ninguém veja,
Hei de ser capaz de ser a estrela que se apagará.
Tenho pressa de gritar.
Resolvi viver agora mesmo.

publicada por Lua Serena às 1:31 AM 0 Comentários